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Prazer lúdico de tocar versus pacto pela perfeição marca 'Whiplash'

Vendo o filme, a sensação é de perda; foi-se a criação por meio do improviso, em nome da performance definitiva

João Marcos Coelho , Especial para O Estado de S. Paulo

31 Janeiro 2015 | 03h00

“Eu vi a perfeição”, revela a vitoriosa bailarina vivida por Natalie Portman na cena final de Cisne Negro, filme de 2010, depois da dilacerante construção do papel principal no balé Lago dos Cisnes. A mesma palavra pula para o subtítulo de um dos candidatos ao Oscar deste ano, Whiplash – Em Busca da Perfeição. Em ambos os casos, a sensação é de perda. Foi-se o sentido lúdico da prática artística. Hoje, vale mais a perfeição robótica. Hoje, o candidato a artista – seja músico ou bailarino – tem como meta perseguir freneticamente a performance definitiva.

No universo da música clássica, o primado da performance é algo resignadamente admitido. Um pouco por causa do tsunami de músicos asiáticos delirantemente disciplinados para praticar a perfeição, estudando 28 horas por dia. Hoje, são de origem asiática cerca de 40% dos integrantes das grandes orquestras europeias e norte-americanas; hoje, eles também são maioria entre os jovens virtuoses.

Mas outro tanto se deve ao caráter museológico da vida musical “clássica” no século 21. Esgotamos nossa cota de repetição, bombeando para nossos ouvidos os sons do reservatório de obras-primas do passado. Nada mais natural, portanto, que os músicos deem suas vidas, num pacto diabólico, para nos proporcionar performances absolutamente... perfeitas. 

Tudo isso até se entende de modo lógico. Mas quando a obsessão pelo perfeccionismo performático invade o jazz, um domínio no qual o prazer sempre foi o norte fundamental da prática artística, aí se acende um alerta vermelho. O jovem candidato a baterista titular da big band do conservatório Shaffer em Whiplash arranca sangue das mãos (como, aliás, a bailarina Natalie Portman, que se mutila em Cisne Negro) para ser como Buddy Rich, o notável baterista da era das big bands que pode ser visto no YouTube tocando por puro prazer. E Simmons põe a cereja final neste bolo dilacerado, contando o episódio famoso de Jo Jones atirando um prato na direção do saxofonista Charlie Parker por causa de uma performance medíocre. Simmons, aliás, está maravilhoso encarnando o comandante tirano líder de big band, igualzinho aos grandes maestros clássicos contemporâneos de Charlie Parker, como Toscanini e Karajan, retratados por Elias Canetti em Massa e Poder. Mas infinitamente distante do modo descontraído, informal e amigo de lendas como Duke Ellington e Count Basie à frente de suas big bands.

É doença de nossos estranhos tempos atuais que um gênero feito no instante, na criação instantânea da música por meio do improviso, deixe-se engessar pela reprodução de performances de obras do passado. Whiplash, tema de Hank Levy composto para a big band de Don Ellis, nos anos 70, agora soa datado. Mas não quando Ellis a gravou. Ele perseguia o novo, não a perfeição: a sua foi uma das mais luminosas e injustamente pouco conhecidas big bands modernas, experimentando métricas e harmonias inovadoras. Nos idos de 1956, o francês André Hodeir definiu o gênero como “uma inseparável, mas extremamente variada mistura de relaxamento e tensão”. Ora, podem argumentar, mas este é o princípio da música dita clássica: as obras partem de portos seguros, fazem atribuladas viagens sonoras e retornam para casa. Acontece, diz Hodeir, que no jazz relaxamento e tensão convivem no mesmo tempo e espaço – daí a sua permanente sensação de fricção. Um misto de prazer e difícil parto da criação instantânea. 

Correr atrás de uma perfeição retrô é deixar de lado uma das lições mais preciosas do jazz, o prazer lúdico de tocar. Algo que até os tempos de Liszt estava no corpo e na alma dos músicos clássicos. Em 1810, Beethoven reclamava dos ladrões de música que ficavam nas madrugadas embaixo de sua janela anotando seus improvisos; Liszt inventou em 1839 o recital de piano solo para acomodar seu talento para o improviso e as transcrições.

Perseguir a perfeição é perder-se como artista. Às vezes, é melhor desprezá-la, como ensina Gilberto Gil em Meio de Campo: “Eu continuo aqui mesmo, Aperfeiçoando o imperfeito, Dando um tempo, dando um jeito, desprezando a perfeição”.

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