‘Praia do Futuro’, com Wagner Moura, é mais um exemplo da produção sensorial de Karim Aïnouz

Filme se abre a várias questões e vai além da sua temática mais evidente

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

14 de maio de 2014 | 03h00

A Praia do Futuro fica a uns 20 quilômetros de Fortaleza e é um dos pontos turísticos preferidos da capital cearense. Extensa, areia boa, cheia de quiosques. Mar bonito e perigoso, salinidade excessiva, que não permite a construção de edifícios altos, para o bem da cidade. É nesse ambiente, fascinante e um tanto amedrontador, que moram o salva-vidas Donato (Wagner Moura) e seu irmão menor, Ayrton. Um dia, Donato perde a parada para o mar e não consegue evitar o afogamento de um turista alemão. No hospital, conhece o amigo do afogado, Konrad (Clemens Schick). E aí temos o começo da história filmada por Karim Aïnouz (de Madame Satã, O Céu de Suely e Abismo Prateado).

Quem conhece o cinema desse cearense, dono de experiência internacional, sabe que ele prefere o estilo sensorial ao intelectual. A narrativa se constrói à luz da pele e não na sombra dos neurônios. Câmera próxima, em especial nos planos mais intensos, uma profundidade que se busca mais pelos sentidos que pelos diálogos - embora estes sejam sintéticos e quase nunca banais. Enfim, tudo, nesses filmes, "faz sentido" - desde que se tome a palavra de forma literal como figurada. Sentido como significado; sentido como o que é percebido pelos órgãos através dos quais percebemos e nos comunicamos com o mundo.

Sim, porque se nesse filme há corpos que se atraem ou se repelem, existem também outras questões que afloram dessa dimensão do desejo. A história se passa entre dois mundos - e bem diferentes entre si. O Brasil e a Alemanha. O calor e o frio, a praia e a neve. Karim trabalha com uma série de antinomias. Em certa medida, a trajetória de Donato será uma viagem em busca do conhecimento entre duas fronteiras, como no fundo é toda viagem digna desse nome. Não será nomeada assim, mas pouco importa. Desde quando conseguimos dar nomes a tudo o que nos acontece? Experiências radicais são da ordem da perplexidade. Literalmente, ficamos mudos diante do inusitado e só depois recorremos às palavras para restabelecer uma precária ordem no mundo.

Praia do Futuro joga um pouco nessa dimensão, que é cinematográfica por natureza: lá onde a palavra vacila, talvez a imagem nos diga algo. Por isso, uma das cenas mais intensas, e mais belas, de toda a história seja o reencontro entre Ayrton (Jesuíta Barbosa) e Donato depois de anos sem se verem. Como o choque de emoções contraditórias é tão forte, as palavras já não servem - e os irmãos passam a lutar como se inimigos fossem. A briga passa a ser um sucedâneo do carinho, ou da mágoa.

E, claro, há a questão do sexo, em si. A sexualidade humana, em toda a sua complexidade e capacidade de variar em forma e conteúdo. No entanto, em entrevistas, tanto diretor como atores têm tentado minimizar o debate em torno da homossexualidade suscitada pelo filme. Compreensível: é como se afirmassem que a questão homossexual já não é em absoluto... uma questão. Mas isso também implica minimizar a importância da moral média em uma sociedade conservadora como a brasileira - e a esta altura do campeonato alguém ainda tem dúvida sobre esse conservadorismo intrínseco da nossa sociedade?

Claro que se trata de um esforço meritório de se prevenir contra preconceitos habituais e naturalizar a questão homossexual. No entanto, também é óbvio que Praia do Futuro não teria a mesma força, o mesmo impacto e mesmo impulso contestador caso o par central fosse heterossexual. Para desfazer estereótipos, Karim dota seus personagens de uma virilidade inesperada. Seus tipos são homens de ação, másculos, aventureiros, corajosos.

Muito da força do filme deriva da maneira como desaloja preconceitos arraigados (pense no jeito como homossexuais são retratados nas comédias brasileiras, por exemplo). E a presença de um ator famoso, associado para sempre a um personagem durão, só contribui para essa quebra de expectativa. A beleza e complexidade do filme vão muito além do que se tem dito e escrito sobre ele.

A obra de arte fala por si. Ou nada diz.

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