Luis Mario Farias
Luis Mario Farias

'Pra Frente Brasil' reforçava argumentos pela volta da democracia

Entre a produção do filme e sua interdição pelo Departamento de Censura e Diversões Públicas, por meio da diretora Solange Hernandes, Roberto Farias viveu dois anos de grande apreensão em sua vida pessoal

Mauro Farias, O Estado de S.Paulo

10 de março de 2021 | 05h00

Nascido em 1932, Roberto Farias, meu pai, era de uma família de classe média baixa, cujo destino natural seria trabalhar com meu avô no açougue da família em Nova Friburgo, interior do Estado do Rio. Em sua adolescência, nas madrugadas geladas da cidade, fazia a entrega de carne na bicicleta do açougue antes de seguir para a escola. 

A maior referência intelectual na sua formação veio através de um tio, Lilito, irmão mais velho de sua mãe, que era um militante comunista, fã de Marx e da União Soviética. Na Friburgo do início do século 20, não se tinha ainda uma noção clara dos desastres decorrentes das tentativas de se implantar sociedades igualitárias pelo mundo. 

Aprendeu a fazer cinema com o cineasta Watson Macedo, nas chanchadas da Atlântida. Ao se tornar um realizador, seus primeiros filmes foram financiados com recursos próprios do pai açougueiro, e precisavam dar retorno. 

Depois dos primeiros sucessos com comédias como Rico Ri à Toa, voltou sua atenção para as questões sociais com Cidade Ameaçada, O Assalto ao Trem Pagador e Selva Trágica, seu único filme de pouca bilheteria.

Em Toda Donzela Tem um Pai Que é Uma Fera, seu primeiro filme feito durante a ditadura, satirizou os novos tempos de arbítrio ao retratar um general obrigando o namorado de sua filha a se casar na igreja, sob a mira do canhão de um enorme tanque de guerra. 

Protótipo do “self-made-man” brasileiro, fundou a R.F.Farias com os irmãos e, com a premissa do sucesso a ser seguida, fez enormes bilheterias como diretor e produtor.

Ao aceitar o convite para a direção da Embrafilme, num momento de promessa de abertura política do governo, sacrificou sua empresa, com a pretensão de estar sedimentando as bases de uma indústria cinematográfica no Brasil. Seu objetivo era ampliar a produção e exibição de cinema brasileiro e, não por acaso, chegamos a ocupar 40% do circuito exibidor nacional.

Como diretor-geral da Embrafilme, foram muitos os embates com alas conservadoras e com o Departamento de Censura e Diversões Públicas do Ministério da Justiça, mas paradoxalmente foi um período de grande avanço, e único nesse grau de importância, do cinema brasileiro.

Depois da Embrafilme, de volta à vida particular, o Brasil ansiava por democracia e o filme Pra Frente Brasil foi sua maneira de expressar um argumento contundente pela volta da liberdade e à democracia.

Entre a produção do filme e sua interdição pelo Departamento de Censura e Diversões Públicas, por meio da diretora Solange Hernandes, viveu dois anos de grande apreensão em sua vida pessoal. De um lado, o medo que cercava a todos durante a ditadura e, de outro, a possibilidade da falência de seu negócio e arte.

Neste momento em que divulgar fake news ou cancelar pessoas e obras com argumentos infundados se propagam livremente, dar esse depoimento sobre a figura de Roberto Farias por um prisma familiar pode trazer uma luz a mais sobre essa figura marcante de nossa cultura cinematográfica.

É DIRETOR DE CINEMA E TELEVISÃO, À ÉPOCA ASSISTENTE DE DIREÇÃO DE ‘PRA FRENTE BRASIL’

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