Tamanduá Vermelho
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'Povos indígenas sofrem com pandemias desde que os brancos chegaram', diz o pajé Regis Myrupu

Pajé é protagonista do premiado filme ‘A Febre’, e faz interlocução entre o longa e o impacto da covid-19 em seu povo amazonense

Rodrigo Fonseca, Especial para o Estado

13 de fevereiro de 2021 | 05h00

Celebrizado ao receber o Prêmio de Melhor Ator no Festival de Locarno 2019 por A Febre, o pajé Regis Myrupu – nascido em São Gabriel da Cachoeira, no noroeste do Amazonas – e sua colega de cena Rosa Peixoto – sua filha no aclamado filme de Maya Da-Rin – têm recorrido às forças da natureza e à espiritualidade para protegerem seus familiares e amigos da pandemia. No momento em que o longa chega à Netflix e está programado pelo Cana Brasil (exibição na segunda, 15, às 20h50), após ter conquistado 29 prêmios mundo afora, revelando uma cartografia das estratégias de sobrevivência das populações indígenas, suas estrelas se abraçam à fé dos povos originários para rezar contra o alastramento da covid-19 na capital amazonense.

Para os clãs indígenas, nem toda reforma assistencial parece aplacar os danos inerentes ao contágio, dando à palavra “isolamento” um sentido politicamente trágico, assim como acontece na trama filmada por Maya. Nela, um segurança (Regis) entra em estado febril inexplicável, em meio à aparição de uma criatura desconhecida.

“Os primeiros meses da pandemia foram difíceis, pois acabamos infectados pelo coronavírus, apesar de termos tomado todas as precauções”, diz Rosa Peixoto, do povo Tariano, egressa de Iauaretê, um distrito da mesma São Gabriel da Cachoeira (AM) de onde vem Regis, localizada a cerca de 1.100 km de Manaus, segundo dados da Funai. “Fomos curados pelos poderes ancestrais e ficamos todos bons aqui em casa. Depois de um longo período em que ficamos isolados, começamos a nos adaptar e a organizar os trabalhos que tínhamos. Minha família se uniu e se ajudou muito para passarmos por esse momento delicado.” 

Hoje radicado na Itália, país natal de sua mulher, a designer Romina Bianconi, Regis lamenta a morte de dois tios (um “de sangue”, um “do coração”) e de um pajé, que foi seu professor, em decorrência da covid. “Aos olhos de um xamã, os povos indígenas vêm sofrendo com pandemias desde que os colonizadores brancos chegaram, trazendo doenças. Mas, agora, falta muita coisa a Manaus em termos de condição sanitária e de leitos para os doentes. Entre os jovens, poucos herdaram o conhecimento dos pajés, nas tradições de cura, o que nos leva a apelar para a medicina dos brancos. O problema é que conheço indígenas que adoeceram em São Gabriel da Cachoeira, foram até Manaus para se tratar e, lá chegando, contraíram a covid e morreram. Acreditamos que é necessária a defumação e que precisamos comer certos alimentos e beber certos líquidos para preservar o corpo. Mas essas práticas não acontecem nas cidades grandes”, lamenta Regis, de 41 anos, às voltas com uma filha de 19 meses, Yusiò Celeste. “Daqui, eu faço rituais para proteger minha família, mandando proteção para meu povo e para Manaus.”

Lançado em circuito em novembro, A Febre abriu sua trajetória em Locarno, na Suíça, não apenas ganhando o troféu de melhor atuação dado a Regis, mas com o Prêmio da Crítica, votado pela Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica – Fipresci, e o Prêmio do Júri Jovem, ligado à sua abordagem ambiental. Então estreante nos cinemas, Regis brilha no longa no papel de Justino, um vigia do cais do porto que começa a ser acometido por uma moléstia térmica – a tal febre do título – que médico algum explica, sendo sempre acompanhado pela filha, Vanessa (papel de Rosa), também profissional da Saúde. 

O desgoverno de sua temperatura se manifesta no momento em que um animal (ou coisa assim) passa a rondar o perímetro por onde ele trafega, em sua rotina modesta. 

No Festival de Biarritz (França) e no Festival de Pingyao (China), a produção conquistou os prêmios de Melhor Filme. Também recebeu o prêmio de Direção no Festival de Chicago (EUA). Projetado em Thessaloniki (Grécia), Mar Del Plata (Argentina) e Amiens (França), o longa conquistou o troféu Candango de melhor filme, em Brasília, e o troféu Redentor de melhor direção no Festival do Rio, onde ainda ganhou um prêmio especial pela engenharia de som. “Quando eu morava em Manaus, era muito difícil um produtor me ver como atriz”, diz Rosa, hoje com 32 anos. “Viam apenas uma pessoa incapaz de estar ali atuando como qualquer personagem. E, depois do A Febre, esse pensamento mudou muito em relação a nós, indígenas. Passaram a ver a gente com mais respeito e com olhar mais profissional. Antigamente, você não era visto para ocupar esse espaço: o de protagonista.”

Logo após a exibição em Locarno, Maya conversou com o Estadão, que estava na plateia onde o longa foi ovacionado, e disse: “Acho que todos os indígenas são heróis. Depois de terem vivido o fim do seu mundo, há mais de quinhentos anos, e resistido ao maior massacre da História, aqueles que sobreviveram e seguem lutando para sobreviver são os maiores heróis que a humanidade já conheceu. Então, com certeza, Justino é um herói, mas também é um personagem com o qual eu poderia cruzar no meu cotidiano. Queria fazer um filme sobre os seus dilemas existenciais”, disse Maya, ressaltando seu esforço em evitar exotismos. Esforço esse que Regis celebra no filme que projetou sua luta para resguardar seu povo, os desanos.

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