Poveda: outras guerras muito particulares

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Roberta Pennafort,

26 de outubro de 2009 | 13h51

Rio - O documentário La Vida Loca é o último trabalho de um jornalista engajado, na mais fiel acepção da palavra. O filme custou a vida do diretor, o fotojornalista francês Christian Poveda, que voltou sua câmera para os maras, gangues de jovens salvadorenhos. Acabou assassinado possivelmente por integrantes desses grupos. O crime, que mobilizou a organização Repórteres Sem Fronteiras e teve repercussão internacional, ocorreu em Campanera, perto do centro da capital, San Salvador.

 

Veja onde este filme está em cartaz

 

Poveda voltara ao local porque havia combinado de dar uma entrevista sobre o filme, mais especificamente sobre as mulheres que fazem parte da gangue retratada, para a revista feminina francesa Elle. E achou melhor primeiro avisar ao grupo que retornaria outro dia com um repórter. Acabou assassinado com quatro tiros, aos 54 anos.

 

“É tudo muito triste. Christian conhecia bem a região, passou 16 meses filmando direto, todos os dias, e não tinha medo”, disse o mexicano radicado em Paris Emilio Maille, que conhecia Poveda havia 12 anos e é o coprodutor de La Vida Loca. Cinco pessoas foram presas acusadas de envolvimento no assassinato. De acordo com as informações da polícia local (das quais os amigos de Poveda desconfiam), eles seriam da gangue que se denomina “18” (o número é relativo ao número da rua em que moram).

 

“A ideia era fazer um filme chocante, que incomodasse mesmo, mostrar que só a repressão policial não adianta nada”, explica Emilio Maille. A intenção inicial era retratar não só um grupo, mas o “18” e “13”, que travam uma guerra na qual já morreram mais de 3,7 mil pessoas. O “13” não quis participar, mas Poveda não desistiu do projeto. “Ele queria mostrar a brutalidade absoluta daquela realidade”, diz Maille.

 

Fotógrafo havia mais de 30 anos, humanista, preocupado com a juventude, Poveda, que tinha origem argelina, cobriu a guerra civil em El Salvador nos anos 80, e viajou por outras zonas de conflito pelo mundo. Publicou seu trabalho em veículos europeus e norte-americanos, como o El País, o New York Times, a Paris Match, a Time e a Stern. Ele amava El Salvador, e passava cada vez mais tempo por lá. Foi nos anos 80 que Poveda aderiu ao vídeo. Chegou a realizar mais de uma dezena de documentários, apresentados em festivais.

 

Por conviver intensamente com os membros das gangues salvadorenhas, desenvolveu algumas relações de amizade, embora também recebesse ameaças. Seu interesse era investigar a motivação desses jovens, como a falta de esperança e a cultura da violência. “A gente tem de tentar entender por que um garoto de 12 anos entra para uma gangue e resolve dar a vida por ela”, ele costumava dizer.

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