Portugal perde seu cineasta provocador

O cinema português tem seu mestre e teve seu provocador. Omestre, Manoel de Oliveira, continua lúcido e produtivo, aos 94anos. O provocador se foi e o lugar resta vago com a morte deJoão César Monteiro, aos 64 anos, na segunda-feira. Nascido em Figueira da Foz, Monteiro protagonizou umacarreira de escândalos e controvérsias. Escândalos por conta datemática pouco usual de seus filmes e também por sua figuraesquálida e abusada: ele criou uma persona artística - João deDeus - interpretada na tela por ele mesmo. Controvérsias, poishavia quem o considerasse gênio e quem o tivesse simplesmentepor impostor. Seu último filme lançado, Branca de Neve, causoupolêmica em Portugal. A obra é composta por uma interminávelnarrativa em off, enquanto na tela escura nada se vê. EmPortugal discutia-se se um filme financiado com fundos públicospara o cinema podia se limitar a fotogramas negros, como osapresentados por Monteiro. O problema com personalidades controversas é que setransformam em anedotas e a obra passa a segundo plano. Nem arespeitável Cahiers du Cinéma, em sua fase mais tradicional,escapou a essa sina. Na edição de fevereiro de 1996, Monteiro foihomenageado com matéria de capa. O motivo era o lançamento, naFrança, de seu A Comédia de Deus. O crítico Thierry Joussefez impecável análise do filme, mas a entrevista, longa, de oitopáginas, se ocupou mais da pitoresca vida pessoal do realizadordo que de sua obra. Caso raro na Cahiers, tem-se impressãoque os entrevistadores não sabiam muito bem como lidar com essafigura insólita, que só respondia o que lhe convinha e professava umacrença anarquista empedernida. Mesmo assim, quando acuado, Monteiro se mostrava bemlúcido sobre aquilo que fazia e pensava. Por exemplo, quando lheperguntaram se Comédia de Deus é um filme político, respondeu:"Quis fazer um filme político, mas no sentido grego do termo,ou seja, uma intervenção nos assuntos públicos. Não acreditomais na Europa. Não acredito mais na nação. Não acredito mais namoeda única." Em sua radicalidade, mas nesse ponto parecido com muitoseuropeus mais "normais" do que ele, Monteiro temia que aunificação sufocasse os traços distintivos dos países-membros.Podiam ter razão. Podiam não ter, mas o fato é que o sentimentoexiste e deve ser levado em conta. Dessa matéria polêmica, no fundo, foi feito o seulonga-metragem mais interessante. Comédia de Deus traz omesmo personagem de filmes anteriores, João de Deus(interpretado pelo diretor), desta vez encarnando um sibarita,empregado de uma sorveteria de luxo, a Paraíso. João detém osegredo de estranha fórmula de fabricação de sorvetes quegarante aos produtos seu sabor único. Não é difícil encontrarnessa sorveteria onírica de João de Deus a defesa daoriginalidade contra a uniformização - que pode atingir países eculturas, incluindo o próprio cinema. Isso, aliás, já estariaacontecendo na Europa, com co-produções continentais quedesfiguram culturas e sotaques locais. Todo o cinema de Monteiro vai no sentido de garantirradical originalidade à obra. Trata-se de uma defesa do direitopessoal do autor, da fabricação artesanal da obra, com suaassinatura única e não negociável no mercado criado pelaindústria cultural. Claro, tal atitude deriva de opçãoconsciente pela marginalidade. Fora do mainstream, alheio anormas e eixos habituais, o cinema de João César Monteiro semprefoi biscoito fino, para o bico de poucos, para hedonistas econnaisseurs - como o sorveteiro vivido por ele em seu melhorlonga-metragem. No entanto, não é apenas a extravagância que chama aatenção para a obra de Monteiro. Estranheza, sozinha, não sesustenta. Mas causa efeito quando a forma é de extremo rigor emsua concepção. Certos planos de Comédia de Deus lembrampinturas, os enquadramentos são clássicos e o espectadorsente-se envolvido pela duração hipnótica dos planos longos ebem elaborados. Enfim, sentimo-nos totalmente despreparados paraassistir a um filme como este - pela boa e simples razão de queele não se parece a nenhum outro. Estamos aqui diante do novo,de verdade. Tão raro tanto na vida real como no mundo assépticodo cinema comercial. Nem sempre, é bom lembrar, Monteiro conseguiu unir aradical invenção a uma forma bem lograda. Com freqüência caiu nodestempero, como é o caso de Bodas de Deus, no qual as cenassem lógica se sucedem além do suportável. Mas é normal que uminventor vocacional erre feio. Até acertar. O fato é que, com o desaparecimento de João CésarMonteiro, o cinema fica privado de um olhar único, original aolimite da incompreensão. O cineasta deixa obra de 15 filmes. Omais recente, Vai e Vem, continua inédito. Comédia deDeus, o mais conhecido, recebeu um prêmio especial do júri noFestival de Veneza de 1995.

Agencia Estado,

04 de fevereiro de 2003 | 16h57

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