Elixir Entretenimento
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'Por Trás do Céu' busca alternativa para a miséria social do sertão

Longa de Caio Soh com sua ex-mulher, Nathalia Dill, traz belas imagens

Luiz Carloz Merten, O Estado de S.Paulo

05 Abril 2017 | 20h39

Pense na estética da fome do Cinema Novo, no sertão de clássicos do movimento, como Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos, Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, e Os Fuzis, de Ruy Guerra. Todos esses filmes estabeleceram um cânone, uma maneira de representar o sertão (e a realidade brasileira). Em 2005, Marcelo Gomes reformulou o cânone e propôs uma nova estética para representar o sertão em Cinema, Aspirinas e Urubus. Veio depois o sertão estilizado das motos de Reza a Lenda, de Homero Olivetto, com Cauã Reymond. E chega agora o de Por Trás do Céu, de Caio Soh.

Há pouco mais de um ano, em abril do ano passado, Por Trás do Céu integrou a programação do Cine PE, Festival do Recife. Ganhou os prêmios de ator e atriz coadjuvantes, para Renato Góes e Paula Burlamaqui, mas esteve longe de ser uma unanimidade. É visualmente elaborado, até bonito. O diretor é paulista, urbano. A atriz Nathalia Dill, sua ex-mulher, é bela e eventualmente, em outros trabalhos, talentosa. Reuniram-se para o que não deixa de ser um experimento. Caio Soh filmou no Lajedo de São Matheus, na Paraíba. O local foi escolhido pela imensidão do azul do céu.

No Lajedo moram Nathália e o marido. Ela se chama Aparecida. É habilidosa e transforma os trastes recolhidos pelo marido em coisas belas que ele vende em feiras. Aparecida sonha com a cidade. O marido se opõe. Chega um amigo dele, Micuim/Góes, que traz o mar - um pedaço, pelo menos - numa garrafa. Mas o que desestabiliza a relação, e o grupo, é a prostituta. Paula Burlamaqui fugiu de seu cafetão. Entra no filme coçando-se. A sarna é considerada coisa da cidade, e portanto chique, pelo povo perdido do Lajedo.

Caio Soh é músico, além de escritor e cineasta. Cria uma trilha melancólica para embalar seu quarteto humano, recorre a uma fotografia que provocou polêmica do Cine PE - é saturada ou estetizante? E o realismo do diretor é poético ou fantástico? São questões até interessantes, mas que o filme não segura. Nada, nem o elenco, retira do filme esse sentimento de vazio que o paralisa. 

Por Trás do Céu foi um filme que nasceu com uma vontade artística, isso não se pode negar. Em parte, pode-se retomar aqui a velha conversa da ‘cosmética’ da fome que travou o cinema brasileiro da chamada Retomada. O realismo de Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, seria cosmetizante, mas Marcelo Gomes - ele! - reinventou e atualizou a estética de Glauber e Nelson. Caio Soh vai numa outra direção. Um voo mais sensorial? Há uma máquina de filtrar pensamentos e um foguete caseiro. Nesse lugar em que o tempo parou, são ideias que buscam fazer o filme andar. Como Aparecida, que trabalha com retalhos, Caio Soh também busca costurar esses fragmentos, de forma a compor um todo. Uma metáfora do País, do mundo?

No Recife, no ano passado, o diretor não se abateu com as críticas e foi guerreiro na defesa do projeto - o sertão de seu filme não é uma representação de miséria social. É uma abordagem de cunho mais existencial. “Quando você coloca beleza num lugar que, em princípio, é pobre e seco, está querendo propor uma outra coisa. Então, para mim, o que há em Por Trás do Céu, é pouca miséria e muita solidão.” O júri oficial, integrado pelo cineasta João Batista de Andrade - o anunciado sucessor de Manoel Rangel na Ancine -, avalizou o discurso existencial ao premiar os coadjuvantes. E o público, também. Por Trás do Céu venceu o prêmio do júri popular no Recife. Resta saber se, num momento em que o cinema brasileiro está dividido entre blockbusters e miúras, o filme conseguirá atrair plateias pagantes.

 

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