Wilson Webb
Wilson Webb

Por que ler hoje ‘Adoráveis Mulheres’?

Assim como o livro de Louisa May Alcott, escrito há 150 anos, filme pode ser um guia para criar bem seus filhos

Anna Nordberg, THE WASHINGTON POST

01 de fevereiro de 2020 | 07h00

Enquanto assistia à adaptação da diretora Greta Gerwig para Adoráveis Mulheres, indicado para seis Oscars, fiquei pensando: isso faz parte do livro? Isso faz parte do livro? A história das irmãs March e sua mãe, Marmee, é familiar para mim, mas o filme pareceu uma revelação.

Sim, tudo o que aparece ali está no livro. Gerwig não atualizou o romance, ela simplesmente o iluminou. Eu também poderia dizer, após reler o livro, 25 anos depois da primeira vez que o li, que esse é o mais claro, corajoso e sutil guia de como ter um ambiente familiar saudável.

Nós precisamos disso. Há tantas preocupações sobre como ser um bom pai e uma boa mãe hoje que é bom perceber que a maioria dos problemas que enfrentamos atualmente não é nova. Marmee, a matriarca da família March, os enfrentava já no século 19. O romance se passa durante a guerra civil americana, mas foi inspirado na adolescência de Louisa May Alcott em Concord, Massachusetts, nos anos 1840.

Aqui vai o que os pais podem aprender com o extraordinário retrato feito por Alcott da família. Essa é uma família que sabe como se divertir. Resumindo, as mulheres da família March se divertem umas com as outras. Elas são pobres, portanto viagens caras e festas não fazem parte do seu cotidiano (o livro começa com as garotas falando sobre como não terão presentes de Natal naquele ano); em vez disso, é a maneira como vivem seu mundo familiar – os pequenos rituais, rotinas e tradições que são a base dessa felicidade – que é cativante.

De todos os conselhos que recebi sobre ser mãe, o mais útil foi para reservar um tempo para divertir minhas crianças. Outras obrigações dos pais – ensinar o certo e o errado, compartilhar um sistema de valores, dar às crianças as habilidades para se tornarem independentes – provêm dessa base.

Marmee lida com a personalidade individual das garotas. O que faz dela não apenas adorável, mas excepcionalmente competente como mãe é que ela vê cada filha como um indivíduo. Ser mãe de quatro filhas não é para os fracos (o pai delas está ausente, servindo como capelão no Exército durante a maior parte da história), e você poderia perdoar Marmee se ela tentasse apenas fazer o suficiente para chegar até o fim do dia.

No entanto, ela apoia cada uma das filhas em seus desafios: Jo com suas emoções conflitantes, Amy com suas vaidades e Beth com a sua timidez. E ajuda a criar um papel importante para Beth em casa em vez de forçá-la a enfrentar o mundo.

Quando Meg, a filha mais velha, de 16 anos, parte em viagem para a casa de uma amiga rica, e ouve boatos sobre como sua mãe deve estar procurando um bom partido para ela, a resposta de Marmee, quando uma Meg devastada a questiona se isso é verdade, é maravilhosa.

“Minhas queridas filhas, eu espero o melhor para vocês, mas não quero forçá-las a nada – casar com um homem simplesmente porque ele é rico, ou tem casas esplêndidas, que não são lares porque não há amor nelas”, diz Marmee. “Prefiro vê-las casadas com homens pobres, a vê-las sendo rainhas em seus tronos, mas sem respeito próprio e paz.”

Embora ter o foco no casamento seja condizente com um tempo em que as mulheres quase não tinham oportunidades de carreira, a ideia central desse discurso – de que a vida centrada no status, e não num propósito e no amor, não trará felicidade – permanece. Essa é a mensagem que Meg – que Marmee sabe que tem um bom coração, mas inveja seus amigos ricos – precisa ouvir. 

O que talvez seja mais admirável sobre Marmee é que ela nunca demonstra preferência por uma das filhas. Até os pais com as melhores intenções podem cair nessa armadilha, mas Marmee ajuda cada uma das garotas a se desenvolver de acordo com quem elas são e nunca tenta moldá-las para ser qualquer outra coisa. Nós precisamos dar aos nossos filhos espaço para falhar. No capítulo Experimentos, as garotas decidem abandonar as obrigações e responsabilidades por uma semana no verão apenas para curtir a preguiça. Marmee permite que elas façam esse experimento, mas alerta: “Acredito que vocês vão perceber... que apenas diversão e nada de obrigação é tão ruim quanto só obrigação e nada de diversão”. Então ela se afasta e deixa o desastre se desenrolar lentamente.

A casa está uma desordem, os dias parecem longos demais para as garotas e todas estão descontentes. “Foi impressionante o que um estado peculiar e desconfortável das coisas produziu por meio do descanso e de um processo revelador.” No último dia do experimento, Marmee fica em seu quarto e deixa as garotas se virarem sozinhas e, partir daí, o que se segue é uma série de percalços que culmina com Jo fazendo um bolo com sal no lugar do açúcar. 

O “experimento” é um fracasso tão cômico que as quatro filhas retornam a suas obrigações com mais energia e aliviadas, tendo assim aprendido a lição. Isso porque Marmee deu a elas espaço para falhar, sabendo que, às vezes, é a melhor forma de aprendizado.

Marmee é um modelo de quem está no comando. Quando li Adoráveis Mulheres na escola, as habilidades incríveis de Marmee como mãe pareciam naturais, como as leis do universo, como se bondade e bom senso fossem naturais a ela. Até a adaptação feita por Gerwig, era assim que ela era retratada nas telas também. O que é surpreendente ao reler o romance agora é que Marmee tem de trabalhar para superar seus defeitos e essa experiência é chave para o seu sucesso como mãe. Ajuda suas filhas com empatia e sem julgamentos porque entende as suas dificuldades.

Após Amy cair em um rio congelado porque Jo, que estava brava com ela, não estava olhando, Jo procura sua mãe. “É esse meu temperamento terrível!”, ela lamenta. “Eu tento me curar disso, acho que consegui e então ele irrompe pior do que antes! Oh, mãe, o que devo fazer?” Marmee a aconselha a lembrar desse dia, e diz à filha: “Jo, querida, todas nós temos nossos temperamentos... E, geralmente, levamos a vida toda para domá-los. Você acha que o seu temperamento é o pior do mundo, mas o meu costumava ser igual ao seu”. Jo não consegue acreditar, já que nunca viu a mãe zangada.

“Tenho tentado me curar disso faz 40 anos, e tudo o que consegui foi controlá-lo”, conta Marmee. “Fico zangada quase todos os dias, mas aprendi a não demonstrar, e espero aprender a não me sentir assim, mas pode ser que leve mais 40 anos para aprender isso.”

O presente que Marmee dá a Jo não é um sermão sobre como mudar sua personalidade para o de uma pessoa que não sente raiva. Em vez disso, ela dá conselhos sobre o que fazer para que a raiva não a controle.

A raiva na paternidade/maternidade é real, seja às 7h48 da manhã quando ninguém ainda calçou os sapatos, seja quando você tenta confortar seu filho e leva um chute no olho, ou quando fica sabendo que seu filho está sofrendo bullying. A raiva existe todos os dias.

O que Marmee oferece a Jo em seu momento de dificuldade é a comprovação da experiência compartilhada. E lendo esse livro mais de 150 anos após sua publicação, posso dizer que sinto o mesmo. / TRADUÇÃO TANIA VALERIA GOMES

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