Niko Tavernise/Warner Bros. Pictures
Niko Tavernise/Warner Bros. Pictures

Por que 'Coringa' será diferente de outros filmes de super-herói?

Longa estrelado por Joaquin Phoenix e dirigido por Todd Phillips tem inspirações de Martin Scorsese, Charles Chaplin e Alan Moore, e promete uma experiência diferente no cinema de super-heróis

André Cáceres, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2019 | 07h34

No dia 3 de outubro, estreia nos cinemas brasileiros o filme Coringa, que conta a origem do mais conhecido personagem da galeria de vilões do Batman. Filmes baseados em histórias em quadrinhos de super-heróis têm obtido grande sucesso de público nos últimos anos, mas raramente repetem o bom desempenho com a crítica. Por que Coringa promete surpreender?

A influência de grandes cineastas é um dos pontos que podem explicar como Coringa é um filme diferente de outras adaptações dos quadrinhos. Dirigido por Todd Phillips, que rodou a comédia Se Beber Não Case (2009) e o filme Cães de Guerra (2016), Coringa vem sendo cotado até mesmo para indicações ao Oscar 2020. No entanto, antes da confirmação de quem dirigiria o longa, em 2017, os rumores eram de que cineasta Martin Scorsese assumiria a tarefa. 

O diretor de Taxi Driver, Os Bons Companheiros e A Última Tentação de Cristo acabou não ficando com essa missão, mas Todd Phillips vem fazendo claras referências a outro filme de Scorsese com os trailers e imagens divulgados até então: O Rei da Comédia, de 1982. Ambos os enredos falam sobre comediantes de standup submetidos à pressão do fracasso, que decidem cometer um ato de insanidade. O protagonista do filme de Scorsese, Robert De Niro, estará também no elenco do filme de Phillips.

Outro diretor lendário que foi referenciado no material de divulgação do filme já revelado é Charles Chaplin. Um cartaz de Tempos Modernos e a trilha sonora de Luzes da Ribalta aparecem no primeiro trailer — vale lembrar que Luzes da Ribalta fala sobre um palhaço que perde a fama e entra em declínio.

Coringa é inspirado livremente no quadrinho A Piada Mortal, de 1988, escrito por Alan Moore e com arte de Brian Bolland. A obra foi a primeira a oferecer a origem do Coringa, até então um mistério na DC Comics. Ele era um engenheiro que abandonou a carreira para se tornar um comediante de standup frustrado. Para sustentar sua mulher grávida, ele acaba envolvido em um roubo na fábrica em que trabalhava, mas o golpe dá terrivelmente errado, sua mulher morre e ele enlouquece em uma espiral de decadência. 

Relembre a adaptação em animação de A Piada Mortal com o trailer abaixo:

O personagem apareceu pela primeira vez nos quadrinhos em abril de 1940, na primeira edição solo do Batman. Criado por Bob Kane, Bill Finger e Jerry Robinson, ele surgiu como um sujeito mais caricato no início, mas à medida que outros roteiristas e quadrinistas foram dando novos traços à sua personalidade, o Coringa se tornou mais soturno. 

A mística do personagem é outro motivo pelo qual o filme de Todd Phillips pode surpreender. O Coringa já foi interpretado por alguns dos maiores atores da história do cinema, como Jack Nicholson, que viveu o personagem na adaptação de 1989 por Tim Burton, e Heath Ledger, que marcou uma geração de fãs ao se entregar ao papel em O Cavaleiro das Trevas, de 2008, de Christopher Nolan

Relembre O Cavaleiro das Trevas com o trailer abaixo:

Outros atores não agradaram tanto ou tiveram desempenhos menos aclamados na pele do palhaço, como Cesar Romero, que deu vida a um Coringa muito mais bem-humorado e infantil na série de TV do Batman nos anos 1960, e Jared Leto, que participou de Esquadrão Suicida (2016) como um Coringa obssessivo e cheio de tatuagens. O que leva tantos astros a se debruçar sobre um personagem que é considerado maldito?

O Coringa tem essa fama, entre outros motivos, pelo seu retrospecto com os atores que o interpretaram. Heath Ledger e Jared Leto, ambos adeptos do método Staniskavski, que prega a imersão absoluta na mente do personagem para conseguir uma atuação mais verossímil, apresentaram comportamentos estranhos durante e depois das gravações. 

Ledger chegou a se trancar em um quarto de hotel e afirmou ao New York Times em 2007 que estava dormindo duas horas por noite. Ele morreu pouco depois das filmagens de O Cavaleiro das Trevas, mas sua atuação rendeu-lhe o Oscar póstumo de Melhor Ator Coadjuvante. Na época, sua entrega ao papel foi apontada como um possível motivo que teria desencadeado as crises que culminaram em sua morte por uma overdose de medicamentos. Esses boatos foram desmentidos por sua irmã Kate Ledger em 2017, na estreia do documentário I Am Heath Ledger, sobre sua carreira.

Já Jared Leto enviou presentes macabros como um porco morto e projéteis a seus companheiros de set durante as filmagens de Esquadrão Suicida. Joaquin Phoenix, também adepto do método Stanislavski, afirmou em uma entrevista recente à revista italiana Il Venerdì que assistiu a vídeos de portadores de risada patológica para se inspirar a criar a gargalhada do Coringa no novo filme.

Diferente de outros filmes inspirados no universo dos super-heróis, o longa de Todd Phillips não prima pelas cenas de ação ou pela megalomania. Assim como Logan, dirigido por James Mangold em 2017, Coringa preza por uma atmosfera mais densa e um drama psicológico, aproveitando o rico material produzido em quase oito décadas nos quadrinhos. 

Isso explica por que o filme será exibido no Festival de Cinema de Veneza, estará na programação do prestigioso Festival de Toronto e já tem boas cotações para o Oscar 2020. As altas expectativas poderão ser recompensadas ou frustradas apenas em outubro, quando os espectadores acompanharem a nova encarnação do Coringa nos cinemas.

Confira o trailer final de Coringa:

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