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'Ponto Zero' confirma o gaúcho José Pedro Goulart como autor cult

Filme mostra a dor de crescer, em imagens e sons fortes

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

31 de maio de 2016 | 04h00

José Pedro Goulart fez história no cinema gaúcho e brasileiro com um curta que se tornou mítico - O Dia em Que Dorival Encarou a Guarda, que ele realizou em parceria com Jorge Furtado e foi apresentado no Festival de Gramado de 1986. Passaram-se os anos, as décadas, e sempre houve expectativa pelo longa que o diretor, com certeza, iria fazer. Demorou - quase 30 anos -, mas Ponto Zero teve sua estreia mundial em Gramado, no ano passado. Não teve muita repercussão. Recebeu aplausos protocolares, e prêmios técnicos. Nos nove meses decorridos desde então - o tempo de uma gestação -, o ‘bebê’ de Zé Pedro se tornou alvo de um culto. Ganhou admiradores. Num recente debate em São Paulo, o diretor ouviu de uma espectadora de 16 anos a frase que o deixou emocionado - “Você fez esse filme para mim”, ela disse. “Nunca me identifiquei tanto com um personagem, ou uma história.”

Ponto Zero é um filme na contracorrente do cinema brasileiro atual. Fala de adolescência, mas não seguindo a fórmula dos percalços que cercam a primeira noite de um homem. Ênio, o protagonista, interpretado por Sandro Aliprandini, vive quase um hui-clos familiar, colhido no quadro de tensão (e confronto) entre pai e mãe. Ao longo de uma noite decisiva, o garoto sai do casulo e se confronta com o mundo - chuva, acidente, sexo, morte. Nessa viagem de autodescoberta e conhecimento, só o próprio Sandro poderá se estender a mão, e salvar-se.

Desde Gramado, todo mundo cobra de Zé Pedro Goulart suas influências - François Truffaut, com certeza. “Sinto decepcionar, mas o filme não é fundado sobre influências conscientes. Sou cinéfilo, e certos filmes e imagens são perenes no meu imaginário. Mas não pensei em Os Incompreendidos, embora o Sandro (Aliprandini) lembre um pouco Jean-Pierre Léaud e a primeira parte do meu filme tenha elementos que evocam Truffaut.” Esses elementos perfazem o quadro da adolescência como uma espécie de limbo. Entre a infância e a idade adulta, entre pai e mãe, Ênio é o próprio incompreendido. Esse imaginário não é realista. Abre-se para o onirismo. Muita coisa em Ponto Zero parece surreal.

Tem a chuva, a piscina, a cidade invertida e os carros que parecem andar no céu. “A ideia foi sempre fugir ao diálogo explicativo. Ênio quase não fala. Então, precisava de imagens fortes para expressar o que ele sente.” A água é muito forte - a chuva torrencial, mas também, e principalmente, a piscina em que Ênio tem a impressão de se afogar. As imagens são poderosas, e o som mais ainda. Ponto Zero possui um dos mais elaborados tratamentos de som do cinema brasileiro recente. “É a mesma coisa. O som tem esse peso porque, como a imagem, ele é nossa alternativa para o silêncio, para o fechar-se sobre si mesmo de Ênio.”

É raro um filme de estreante, mesmo que seja um veterano (no curta), que aposte tanto na interpretação de outro estreante. Se Sandro Aliprandini não correspondesse (tanto), o risco de desastre teria sido total. “Procurei muito pelo meu ator. Quando encontrei o Sandro, dei-me conta imediatamente de que minha busca tinha chegado ao fim. Mas ele tinha 13 anos, cabelo curto. Muita gente achou que eu estava louco, mas esperei durante um ano por ele. Queria que tivesse 14 anos e cabelo longo. Era absolutamente necessário. Nesse processo, desenvolvemos uma parceria, uma confiança, muito grande.” Zé Pedro Goulart nunca deu o roteiro para Sandro ler. “Queria que ele chegasse virgem ao set. Queria ver o Ênio, não o Sandro reagir às situações.”

O roteiro como segredo do diretor é algo típico de um autor que se tornou cult no período em que Goulart fez sua passagem para o longa - Terrence Malick. “É curioso, muita gente faz analogia com David Lynch, mas tu (o diretor fala para o repórter, gaúcho como ele) vês mais o Malick. Tem essa coisa da água, sempre presente no Malick, mas entendo que, para ti, a ligação é com a terra, que também é muito forte nele.” Mesmo não sendo um compêndio de referências, Ponto Zero permite essas associações. Se o espectador vai ou não fazê-las, é uma questão em aberto. Mas, até por elas, Ponto Zero é estimulante, e um óvni na contracorrente da produção nacional recente.

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