Ponto Final discute a questão do olhar

No ano passado, Woody Allen abriu o jogo na coletiva após aexibição de Ponto Final no Festival de Cannes. Ao explicar porque havia feito o filme na Inglaterra, com produção local, eledisse, com toda honestidade, que não encontra mais financiadorespara seus filmes nos EUA. Há anos Allen ostenta fama de venenode bilheteria, pelo menos no mercado americano. Seus filmesrepercutem mais no mercado externo, mas até no Brasil afreqüência aos filmes de Allen vem diminuindo. O novo Woody Allen, no qual ele não atua, encerra umparadoxo. É sombrio, como representação do mundo, mas de algumaforma é mais leve do que Crimes e Pecados, com o qual temmuitos pontos de contato. Ambos tratam de crime e castigo, oucrime sem castigo. De resto, como toda obra do diretor, PontoFinal discute a questão do olhar. O herói é este sujeito de baixa origem que ganha a vidalecionando tênis para membros de famílias abastadas. Ele seenvolve com uma garota americana, pobre como ele. Quando surge adesejada possibilidade de ascensão social por meio da união comuma garota rica, a antiga namorada ressurge para dizer que estágrávida. O herói pensa em matá-la. Pensa, apenas? É onde entra omatch point do tênis e do título original. O match point é aquele momento em que a bola quica narede e você não sabe para que lado vai cair. Ocorre algosemelhante perto do desfecho de Ponto Final, comdesdobramentos não só para a narrativa como para o personageminterpretado por Jonathan Rhys-Meyers. Pista - É um filme, mais um, sobre as possibilidades doacaso na vida das pessoas. E é um filme cujo falso happy endcoloca um problema para o repórter e para o espectador. Revelarqual é tira a graça da solução, mas é preciso dar alguma pista -digamos que é a descoberta de que a gente pode perder algumacoisa importante quando pensa que está ganhando. Allen ostenta afama (merecida) de ser um conhecedor profundo da grandeliteratura russa (Dostoievski, Tolstoi) e do cinema europeu deindagação metafísica e existencial (Ingmar Bergman, MichelangeloAntonioni, Federico Fellini). Causou espanto, em Cannes, odesconhecimento que ele tem das grandes fontes da literatura edo cinema americanos. Em tempo, o novo filme de Woody Allen chama-se Scoop,tem, mais uma vez, produção inglesa e é interpretado porScarlett Johansson (e Hugh Jackman). O próximo será feito emBarcelona, com atores e financiamento espanhóis. Que um WoodyAllen não interesse ao público da casa diz muito sobre o queocorre no cinema americano atual.Ponto Final - Match Point (EUA/2005, 124 min.). Suspense. Dir. Woody Allen. 16 anos.

Agencia Estado,

17 de fevereiro de 2006 | 10h56

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.