Pompa de 'A Grande Noite' fica só no título

Longa apenas discreto deixa a desejar ao propor imersão no mundo punk

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

24 de janeiro de 2014 | 20h59

Ele se diz o punk mais velho da Europa. Tem tudo para ser. Pela cara devastada pelo tempo, a afirmação de Benoit, aliás Not (Benoît Poelvoorde), faz sentido.

Tem também um irmão certinho, Jean-Pierre (Albert Dupontel), que trabalha numa loja de colchões. Mas, pela história, a gente vai ver que ele também não é tão careta assim. A família, pai e mãe, que possui um pequeno restaurante, cuja base de alimentação são as batatas, parece ajustada, embora a mãe tenha ar de maluquinha. O que comprova, depois, que as aparências nunca enganam, pelo menos no cinema.

 

 

Os dois irmãos se equivalem. A família idem. E juntarão forças para aquilo que deve ser uma contestação em regra do sistema. “Ele oprime a todos, todos vocês são mal pagos e ninguém liga se estão vivos ou mortos”, brada ao microfone um deles. Frase que não deixa de ter sua verdade. Mas, enquanto a maior parte das pessoas vai tocando sua vidinha, os irmãos punks partem para a marginalidade assumida.

O filme de Benoît Delépine e Gustav Kervern tem lá sua graça, pelo menos em certos momentos, quando os dois decidem caminhar em linha reta, mesmo que, para não se desviarem, precisem atravessar casas alheias. É uma forma de contestação da propriedade privada, dizem.

Outro momento engraçado é quando Gérard Depardieu faz uma ponta, como uma espécie de adivinho picareta (existem os que não são?), consultado pelos irmãos. Para Depardieu é uma brincadeira. Ele joga ao fazer piada apenas com um olhar maroto e a entonação das palavras, o que é privilégio dos grandes atores, mesmo quando participam de um trabalho na base da brodagem, como parece ser o caso aqui. Depardieu foi protagonista de Mamute, filme anterior da dupla de cineastas, também lançado no Brasil.

Por outro lado, para compensar negativamente o que há de engraçado, surgem passagens irritantes, como aquela em que dois personagens falam e falam, longamente e ao mesmo tempo, apenas para mostrar que quando todos falam pelos cotovelos e não ouvem o interlocutor, não existe entendimento possível. Ninguém merece.

Desse modo, como diversão, A Grande Noite é apenas discreto. Como imersão no universo punk, deixa a desejar, porque se concentra apenas em um personagem; dois, a partir de certo ponto. São casos especiais.

A solidão diante de um sistema social estratificado, que não dá margem de manobra a quem se põe de fora, é pouco aproveitada, se a intenção era crítica. Inclusive com a ilusão da liberdade de não pertencer a nada e não ter nada. Talvez seja a consciência dessa ilusão que leva ao planejamento da tal “grande noite”, um espetáculo de contestação revolucionária que, no delírio dos personagens, teria força de mudar a ordem das coisas. Politicamente é nulo.

Com tudo isso somado e subtraído, A Grande Noite  não justifica seu título pomposo.

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