"Pollock" segue história real do pintor

A figura do mártir faz parte da mitologia artística. Van Gogh cortando a orelha e se suicidando. Basquiat morrendo de overdose. Toulouse-Lautrec nos cabarés entupindo-se de absinto. Caravaggio, acusado de assassinato e condenado ao exílio. Pollock levando uma vida de bebedeira e espatifando-se em um acidente de carro aos 44 anos. Jackson Pollock é uma das grandes figuras das artes plásticas dos Estados Unidos, talvez a maior delas e inspirou um longa-metragem dirigido e interpretado por Ed Harris. É compreensível que Harris, o ator de Os Eleitos, tenha se interessado pela figura humana de Pollock. O pintor era um protótipo da criatividade autodestrutiva. Incorporava influências dadaístas e surrealistas e as aclimatava à América - pintava de maneira livre, como quem pratica a escrita automática sobre a tela. Era caótico a não mais poder. Casado, porém mulherengo compulsivo, agressivo e alcoólatra, caminhava para o abismo a olhos vistos. O filme segue a história real de Pollock, do anonimato até a união com Lee Krasne, quando passa a freqüentar os salões de Nova York, conhece marchands e, sobretudo, a mecenas Peggy Guggenheim, o grande sonho de consumo de todo artista emergente. Cair nas graças de Peggy poderia ser o passaporte para o estrelato, a fama, a glória mundial. O céu, enfim. Foi assim para Pollock, mas ele teve de pagar o devido preço por isso. Inquietante, no entanto, é a ausência, no filme, de qualquer tipo de referência mais densa à arte de Pollock. Como se Harris tivesse ficado tão fascinado pelo personagem que acabasse por se esquecer de que ele era, acima de tudo, um artista importante. E que, portanto, o público teria algum interesse em saber como esse personagem se relacionava, de maneira profunda, com a arte que produzia. É possível que, por esse caminho, tivesse conseguido entender um pouquinho melhor o homem Jackson Pollock. Pollock entra em cena num momento muito preciso da história da arte. Vive de 1912 a 1956 e conhece seu auge quando o eixo artístico se desloca da Europa para os Estados Unidos. Por um lado, há a revoada de artistas e intelectuais que se mudam para a América fugindo da guerra. Pollock bebe na fonte do surrealismo e do dadaísmo, à procura de uma linguagem de grande liberdade de expressão. Ou seja, busca inspiração no manancial da cultura européia, mas justamente para livrar-se do peso dessa cultura - um processo talvez mais inconsciente que racional. Por outro lado, ajusta seus pincéis em sua cultura própria, às vezes pouco densa justamente por ser tão nova. Por isso, Giulio Carlo Argan aproxima a arte de Pollock - o "dripping", espirros de tinta em que o pincel não toca a superfície da tela - ao jazz. A música improvisada, que busca o acaso, mas não se rende a ele. Parte de um tema e as figuras que vão sendo criadas no momento estabelecem um novo desenho que, por sua vez, será desenvolvido e comentado, e assim por diante. É nesse diálogo com a música e no conflito que se estabelece entre o acaso e a necessidade que a arte de Pollock encontra sua expressão. A luta do criador com sua criatura aparece em Pollock numa rara cena em que o pintor executa como uma dança sobre a grande tela pousada no solo. É um momento mágico, em que o artista encontra sua arte. A arte buscada por Pollock necessitava de uma vida com a sua para existir, conforme disse Merleau-Ponty a respeito de Cézanne.

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