Policial brasileiro é destaque em Berlim

Minnie Driver não é exatamente umaestrela. Teve alguns bons papéis em filmes interessantes, mas,no geral, é uma atriz de difícil classificação. Não se enquadranos modelos tradicionais de type-casting de Hollywood. Minnieestá aqui mostrando, fora de concurso, Owning Mahowney, quetambém é interpretado por Philip Seymour Hoffman, um dos atoresde The 25th Hour, de Spike Lee. Este, participa dacompetição. Minnie chegou para uma entrevista na terça-feira, quandoforam feitas as indicações para o Oscar, dizendo-se ´chocada´.Todo mundo achou que ela ia reclamar da exclusão de Meryl Streepda categoria de melhor atriz ou de Richard Gere na de melhorator. Minnie não sabia que havia jornalistas brasileiros nogrupo, mas foi logo declarando-se escandalizada por causa deCidade de Deus, de Fernando Meirelles. "O que elespensam?" Eles, os votantes da academia, perguntou. Minnie achaCity of God o filme mais forte que viu no ano passado e nãoapenas entre os estrangeiros no mercado dos EUA. Ainda é cedo para pensar no que Minnie achará de OHomem do Ano. O filme que José Henrique Fonseca, o filho deRubem, adaptou do romance O Matador, de Patrícia Melo - comroteiro de seu pai -, passou hoje no Panorama, uma importantemostra aqui do Festival de Berlim. O Homem do Ano segue umpouco a vertente da violência de Cidade de Deus, mas odiretor não está preocupado com possíveis comparações. "Nemgosto muito de Femme Fatale, mas o Brian De Palma, quando lhedisseram que o filme era muito violento, observou que aviolência é uma coisa para o cinema. Ela fornece um materialmuito rico para discussão e também para armação dos conflitosque vemos nos filmes." Ele acha que o mundo hoje é violento,São Paulo e Rio são cidades violentas e, assim, se o cinema querter o pé na realidade, não há como nem por que fugir do assunto.Ele tem de ser encarado, enquadrado, discutido. Murilo Benício interpreta o protagonista. Chama-seMáiquel. Logo no começo, uma aposta muda a vida dele. Máiquelpinta o cabelo de loiro porque perdeu uma aposta para o primo e,por causa disso, termina matando seu primeiro homem. O morto éodiado por todo mundo, Máiquel vira herói e termina assumindo oofício de matador. O filme é bem-feito, bem interpretado - porBenício e Jorge Dória, que tem falas maravilhosas pelo querevelam do cinismo, misto de racismo e cafajestagem da classedirigente nacional. O personagem de Dória cita estatísticas dotipo ´80% da população são favoráveis à pena de morte´, parainduzir Máiquel a eliminar seus desafetos e, depois, montar onegócio que o transforma no homem do ano. Só que, apesar dos valores de produção, com ótimafotografia de Breno Silveira e tal, o filme não é bom, não émuito bom, pelo menos. É um desses policiais um tanto híbridosna sua mistura de observação social e convenções de gênero. Mascomeça bem, é verdade, e tem cenas ótimas. A dor de dente deMáiquel, o porquinho de estimação, tudo foge ao figurinotradicional. E o filme distancia-se do livro por um detalhe quenão é insignificante. Fonseca conta que não quis fazer um filmetão violento quanto o livro. Preocupou-se em humanizar mais opersonagem, que o atraiu justamente por sua natureza: Máiquelnão revela suas emoções, é arrastado num turbilhão a partir deum detalhe e isso permite ao diretor sintetizar o sentido dofilme num monólogo, quando o matador diz que a vida é como umrio que arrasta a gente ou como um cavalo no qual colocamos obridão, para domá-lo. A questão da vida é essa - se vai ser,para a gente, rio ou cavalo. O Homem do Ano pode nãoimpressionar muito, inicialmente, mas é um filme que merecerevisão. Poderá crescer, inclusive. Um policial brasileiro, outro americano, o de Spike Lee.Ele fez ´quase´ a coisa certa em The 25th Hour. É precisoatentar para esse quase. Spike Lee armou um circo aqui em Berlim há dois anos, quando veio mostrar A Hora do Show. Denunciouo sistema eleitoral americano, disse que a eleição de George W.Bush foi fraudada e destacou seu compromisso com o pensamento dedireita. No seu novo filme, Spike Lee ataca o problema do 11 desetembro de frente. Uma das cenas mais fortes se passa diante deuma janela que descortina o pátio de obras em que se transformoua terra devastada do World Trade Center. O filme tem problemas eo maior é o final, a forma como o diretor visualiza o sonho doprotagonista, que deve ir preso e tem uma visão um tanto idílicado que deva ser a reconstrução da América. É o tema de SpikeLee. O protagonista de seu filme, interpretado por Edward Norton deve reconstruir-se interiormente, como Nova York, onde sedesenrola a ação. Também será preciso voltar a esse filme, apartir da entrevista com o diretor, marcada para amanhã. Filmes como esses, de Spike Lee e de José Rubem Fonseca,apontam para uma das características mais importantes destefestival. Você pode gostar ou não dos filmes, pouco importa. Aseleção faz sentido e isso é fundamental. Hojem de manhã passouo concorrente chinês, Black Shaft, de Li Yang. Trata doneocapitalismo na China, mostra dupla de matadores que percorremas minas do interior do país matando mineradores para simularque são parentes e arrancar dinheiro das empresas. Todos essesfilmes criticam o neoliberalismo como expressão de umanti-humanismo que ameaça devorar-nos no começo do 3.º milênio.Os excluídos da China, do Brasil, de Nova York, no coração docapitalismo americano, fornecem a cara aqui em Berlim. São osrefugiados da antiga Rússia, no filme Lichter, de HansChristian Schmid, que sonham com sua inserção no paraísoconsumista que é a Alemanha hoje totalmente ocidental. Há algode novo no cinema alemão. Transparece em Lichter, o filme deSchmid, e mais ainda em Goodbye Lenin, de Wolfgang Becker,em torno do qual está se construindo um clima de ´já ganhou´. Émuito bom, com seu retrato do colapso da Alemanha Oriental vistopelos olhos de um jovem cuja mãe, militante comunista, está emcoma. A política dá o tom na Berlinale.

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