Polichinelo e o carteiro esculpiram mito do ator

Havia uma delicadeza, mesclada de gentileza, que fazia de Massimo Troisi um ser muito especial. Nascido numa família numerosa de Cremona, próximo a Nápoles, passou a infância e parte da juventude cercado por pais, irmãos, avós, tios e primos. Ele próprio declarou, certa vez, que, cercado de tanta gente, não tinha tempo para exercitar a tristeza. Virou comediante, o palhaço da família. Mas, porque sofria de um doença congênita do coração - tinha o sopro -, isso talvez tenha filtrado seu humor pela tristeza. Massimo Troisi tinha a ingenuidade e inocência de Carlitos (Charles Chaplin) e, como Buster Keaton, não ria. Trabalhou com grandes diretores, fez grandes papéis em grandes filmes. A morte prematura - aos 41 anos, em 4 de junho de 1994 - contribuiu para o mito.

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

04 Junho 2014 | 02h00

Foi há 20 anos, exatamente. Massimo Troisi já era famoso na Itália, onde se iniciou integrando uma trinca de comediantes de TV, La Smorfia. No cinema, arrebentou em Recomincio da Tre, que ficou dois anos, ininterruptamente, em cartaz nas salas italianas. Os maiores papéis foram com Ettore Scola (A Viagem do Capitão Tornado, em 1990) e com Michael Radford. Sobre o segundo, cabe destacar que Troisi recém havia concluído sua participação no filme quando sobreveio a morte prematura. Por O Carteiro e o Poeta, de Radford, foi indicado para o Oscar de melhor ator. O curioso é que, em 1984, escreveu, interpretou e dirigiu, com Roberto Benigni, um filme intitulado Non Ci Resta Che Piangere, Só nos Resta Chorar. Em 1998, Troisi já morrera quando Benigni foi indicado para os Oscars de melhor ator, diretor e filme estrangeiro, por outro filme que também escreveu, dirigiu e interpretou - A Vida É Bela. E, desta vez, Benigni ganhou - filme e ator.

Troisi também já havia ganhado o David do Donatello, o Oscar italiano, de melhor ator e filme, justamente por Ricomincio da Tre. Isso foi em 1981, uma década antes que Capitão Tornado e Il Postino reescrevessem sua história. Para Scola, ele já havia sido o projecionista do cinema de Splendor, com o qual o diretor celebrou seu amor pelas velhas salas. Com Capitão Tornado, a celebração foi mais ampla - da arte e da vida. O personagem do Capitão Tornado - Fracasse, para os franceses; Fracassa, para os italianos - remonta a Plauto, dramaturgo romano que viveu entre 230 e 180 a.C. O personagem de aventureiro atravessou a Idade Média e ressurgiu na França com Téophile Gautier.

Era uma das leituras preferidas de juventude de Scola, que demorou mais de uma década para concretizar o projeto. Um grupo de artistas mambembes atravessa a Itália apresentando-se em feiras. O grupo é integrado por um jovem impetuoso, que pega em armas a todo momento. Para se autovalorizar, e valorizar seu patrão, Pulcinella - Polichinelo, o personagem de Massimo Troisi - vive floreando as habilidades de espadachim de Vincent Perez. Há algo de poético na forma como Polichinelo se realiza por meio da exaltação de Perez. É um artista. Prenuncia o carteiro do filme do inglês Radford.

Ambos, o diretor e o ator, se tornaram amigos por conta de um projeto que não chegou a sair, nos anos 1980. Gostavam de conversar sobre literatura e poesia. Apaixonaram-se pelo livro de Antonio Skármeta sobre o exílio do poeta chileno Pablo Neruda na Itália. E surgiu o filme. O poeta (Philippe Noiret) fornece, com seus versos plenos de metáforas, o instrumental para que o carteiro seduza a bela e inatingível Beatriz, a esplêndida Maria Pia Cuccinota. Mas o carteiro não é só um papagaio que repete a fala do poeta. A poesia o transforma. Quando o personagem conquistou o mundo, Troisi já se fora. Basta vê-lo em cena para perceber que grande artista era - um gênio da estirpe de outro ilustre napolitano, Totò.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.