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Polêmico, 'Polícia Federal - A Lei é Para Todos' chega aos cinemas como promessa de trilogia

Diretor Marcelo Antunez refuta acusações ao filme e diz que não está perseguindo ninguém, mas adverte que quem roubou 'terá de pagar'

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

04 de setembro de 2017 | 06h00

Marcelo Antunez puxa a orelha do repórter. “Você nem deve se lembrar, mas o Estado foi o primeiro a noticiar nosso filme. No lançamento de Até Que a Sorte nos Separe 3, você perguntou o que ia fazer a seguir e eu disse. Um filme sobre a operação Lava Jato.” Polícia Federal – A Lei É para Todos terá pré-estreia nesta quarta, 6, precedendo o feriado, dia da estreia nacional. Melhor seria dizer – o filme vai tomar de assalto centenas de salas de todo o País. O número ainda está sendo fechado, mas será grande. A produtora Downtown, a distribuidora Paris, todo mundo aposta num megassucesso. Antunez é prudente. Diretor de comédias, Qualquer Gato Vira-Lata 2, Até Que a Sorte nos Separe 3 (codireção de Roberto Santucci) e Um Suburbano Sortudo –, ele já ultrapassou com elas, somadas, a marca de dez milhões de espectadores.

Pelo menos sob um aspecto, Polícia Federal é um óvni na produção brasileira atual. Sendo um filme sobre a má utilização de recursos públicos, Antunez e seu produtor pensaram que não seria ético utilizar-se das leis de patrocínio. Buscaram investidores privados, e eles aderiram, cobrindo, sem renúncia fiscal, os R$ 16 milhões da produção. Mas exigiram uma cláusula. No País polarizado por acusações de golpismo – e o choque entre ‘coxinhas’ e ‘petralhas’ –, os investidores deram dinheiro mas querem permanecer anônimos.

Isso já gerou polêmica – seriam de ‘direita’, como o filme. Antunez nega que tenha feito um filme ideológico, mas fez, e colocando na tela o ponto de vista dos federais. Em cena, a repórter engajada pergunta ao delegado Ivan por que ele está querendo destruir o PT? Ele retruca que investiga o que cai na rede. E Antunez – “Sempre votei no PT e até no PCdoB. Não estou perseguindo ninguém. A história é boa e tem de ser contada. Quem roubou tem de pagar”. Num momento de dúvida, o delegado Ivan (Antônio Calloni) pergunta-se a quem servem as investigações que os federais estão fazendo. “Quero crer que ao Brasil”, diz outro delegado.

Ivan é um personagem fictício, embora tenha traços que o aproximam do delegado Igor de Paula. “Os investigadores são sínteses de figuras reais. Essa foi uma solução de roteiro que, ao mesmo tempo, me deu liberdade criativa. O Igor não participou da condução coercitiva do Lula. Foi outro delegado, mas na ficção o Ivan pode.” As coisas, de qualquer maneira, estão tão imbricadas no imaginário dos atores que, na coletiva de imprensa, Flávia Alessandra chamava de ‘Érika’ sua personagem, e na ficção ela é Beatriz. “A Bia realmente se inspira na delegada Érika Marena, mas tentamos fazer com que ela representasse todas as mulheres que fazem diferença na polícia”, diz Antunez.

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Calloni sabe dos riscos que corre – as redes sociais viraram campos de batalha –, mas na coletiva defendeu o filme como proposta para “um debate saudável”. Polícia Federal já nasce com a promessa de ser trilogia. “Um só filme não daria conta de tudo. E a história continua. O segundo vai ser mais sobre a divisão do Brasil, começando com o impeachment da Dilma e terminando com o Congresso que blinda o Temer. O segundo vai agradar mais à esquerda”, avalia o diretor. Nesse primeiro, a curva dramática evolui para a caçada ao ex-presidente. Começa com referências a ‘ele’ e o nome só aparece aos poucos. Vira uma espécie de confronto entre o juiz Sérgio Moro e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. É o aspecto mais polêmico do filme. Moro é Marcelo Serrado, mais apático que neutro, parecendo um boneco de cera. “Encontrei o juiz e ele é muito sério, muito reservado. Foi o que tentamos reproduzir”, diz o diretor. E Lula? Antunez é entusiasmado por seu ator. Conta que Ary Fontoura o surpreendeu. Mas Lula, no filme, é ladino, senão velhaco, o que vale por um parti-pris. “Você acha?” Polícia Federal não quer apenas alimentar o debate. Sua vocação é a bilheteria. Afinal, os investidores não puseram dinheiro a fundo perdido, mas na expectativa de retorno, como disse Antunez.

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