Paula Gaitan/ Divulgação
Paula Gaitan/ Divulgação

Polêmico, Glauber Rocha nunca deixou de ser reavaliado e ressignificado

Morte do cineasta, que pertenceu à geração de intelectuais que pensava o Brasil pelo cinema, completa 40 anos neste domingo, 22

Luiz Carlos Merten, Especial para o Estadão 

22 de agosto de 2021 | 05h00

Completam-se, neste domingo, 22, os 40 anos da morte de Glauber Rocha. Nessas quatro décadas, o legado glauberiano nunca deixou de ser reavaliado e ressignificado. As imagens cruzam-se, como nos filmes delirantes que ele gostava de realizar. Como chefe de fila do Cinema Novo, Glauber sempre foi polêmico – um polemista profissional. Fazia filmes avançados para o gosto médio do público e apoiou, em plena ditadura militar, o General Golbery do Couto e Silva como gênio da raça, avalista do projeto de abertura lenta, gradual e segura do presidente Ernesto Geisel. 

Glauber pertencia a uma geração de intelectuais que pensava o Brasil pelo cinema. Influenciados pelo neorrealismo italiano e pela nouvelle vague francesa, os autores do Cinema Novo não apenas colocaram os excluídos na tela. Tinham esse sonho, e o sonho, por essência, não tem compromisso com a realidade, por mais que ajude a entendê-la. Glauber e os demais cinemanovistas queriam ser revolucionários. Queriam mudar o mundo a partir do cinema. Criaram imagens que permanecem gravadas no imaginário do cinéfilo. Fazem parte, inalienável, da cultura brasileira. 

A estética da fome, imagens cruas, viscerais. Othon Bastos, como Corisco, rodopiando na tela ao som da trilha de Sérgio Ricardo – “Te entrega, Corisco!”. As Bachianas, na cena de sexo, também em Deus e o Diabo na Terra do Sol. A corrida final de Manuel/Geraldo Del Rey e Rosa/Yoná Magalhães, ela cai, ele segue em frente. O sertão vira mar, num plano emprestado de François Truffaut, que também encerrava Os Incompreendidos/Les Quatre-Cents Coups

Jovem crítico na Bahia, Glauber exercitou-se no curta (O Pátio, de 1959), antes de estrear no longa com Barravento, em 1961, impregnado pelos cultos afros e pela beleza de Luiza Maranhão, chamada na época de Sophia Loren negra. Seguiram-se Deus e o Diabo, em 1963, Terra em Transe, em 65, e O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, em 69. Por mais que Glauber tenha feito outros filmes – na Europa, na África –, esses três longas foram responsáveis por sua consagração internacional. Pelo último, ganhou o prêmio de direção em Cannes, outorgado pelo júri presidido por Luchino Visconti. Em 1977, de novo em Cannes, venceu o prêmio especial do júri pelo curta Di Cavalcanti, que se tornou conhecido como Di Glauber. 

Três filmes e meio. Somente a partir deles, mas também por Claro, de 1975, e A Idade da Terra, seu opus final, de 1980, pode-se afirmar que o objetivo de Glauber era colocar na tela o transe. Ele pensou a condição do colonizado e chegou à conclusão de que a forma política de fazer os filmes na América Latina devia passar pela destruição da linearidade. A descontinuidade, segundo Glauber, é a essência da condição do subdesenvolvido. Uma fase da história do Brasil não corresponde necessariamente à evolução de um movimento anterior. Os ciclos são bruscos, com saltos e hiatos. Existem momentos que são puro transplante da cultura e da história estrangeiras. O que Glauber tentou fazer, e conseguiu, foi integrar a arte brasileira ao contexto latino, repensando as origens africanas. 

O próprio Glauber dizia que as imagens de Terra em Transe se referem mais à América espanhola do que à portuguesa, e que a fonte de A Idade da Terra é a negritude, a cultura africana. Esse foi um filme muito importante para ele. Levado à competição de Veneza, em 1980, perdeu o Leão de Ouro para Glória, de John Cassavetes, ex-aequo com Atlantic City, de Louis Malle. Glauber fez escândalo. Acusou o festival de se haver rendido ao imperialismo norte-americano, premiando obras comerciais. No Brasil, A Idade da Terra passou para salas muitas vezes vazias. De alguma forma, o filme foi resgatado pelo tempo. Recentemente, por ocasião da morte de Tarcísio Meira, os obituários lembraram que o grande galã, a par das novelas e peças, marcou presença em filmes importantes – como o de Glauber. 

Nos seus maiores filmes, Glauber adotou estruturas bipolares – o vaqueiro Manuel vive entre Deus e o Diabo no sertão, o poeta Paulo Martins/Jardel Filho dilacera-se entre as forças controladoras de Eldorado em Terra em Transe, o ditador Diaz/Paulo Autran e o demagogo Vieira/José Lewgoy, e no western ideológico O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro – lançado como Antonio das Mortes nos EUA e na Europa –, o professor/Othon Bastos é preso no confronto entre o cangaceiro e o dono de terras. A solução vem pela lança de São Jorge cravada no peito de Jofre Soares. 

Todos esses filmes retratam processos de alienação. A corrida de Manuel para o mar segue-se ao grito “Mais fortes são os poderes do povo!”. Fortes? Paulo Martins cala a boca do personagem que representa o povo. Glauber vaticinava uma traição da esquerda? A força do filme é da mulher, a guerrilheira Sara, interpretada por Glauce Rocha numa das mais maiores atuações da história do cinema brasileiro. 

Glauber, como Pier Paolo Pasolini na Itália, amava a polêmica. Era iconoclasta. Dessacralizou e carnavalizou o velório de Di Cavalcanti, a ponto de a família do pintor entrar na Justiça para impedir a exibição do filme. Embora curto na duração, o filme é imenso por sua reflexão sobre o artista, e o cineasta como pintor de imagens. Decorrido todo esse tempo, Glauber não perdeu nada de sua capacidade de transgredir. Estava tão à frente do seu tempo que hoje ainda soa como profético, e vanguardista, como reflexo do transe brasileiro. 

Glauber essencial

Deus e o Diabo na Terra do Sol, de 1963

O vaqueiro Manuel perde suas terras, liga-se ao beato e depois ao cangaceiro. Arrasta a mulher, Rosa. A estética da fome do Cinema Novo em belíssimas imagens em preto e branco. E com a trilha de Sérgio Ricardo que mistura cordel e o erudito, Villa-Lobos.

Terra em Transe, de 1969

Em Eldorado, poeta divide-se entre ditador brutal e político populista. A câmera na mão de Dib Lutfi, as interpretações poderosas de Glauce Rocha e Jardel Filho. Paulo Autran lembrava a direção de Glauber. Quando tentava ser discreto, ele gritava de trás da câmera: “Mais! Mais!” 

O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro, de 1969

Prêmio de direção em Cannes. A chegada de Antonio das Mortes à cidade dividida entre o cangaceiro e o latifundiário. O romance do professor e da mulher do ricaço. Aquele vestido esvoaçante – roxo, lilás – de Odete Lara.

Claro, de 1975

Glauber no exílio italiano. Todos os sonhadores que um dia quiseram mudar o mundo. O filme deu origem ao belíssimo documentário Glauber Claro, de César Meneghetti.

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