Poeta polonês lembra Basquiat e Jim Morrison

Agonia transmutada em poesia e coragem. Medo-combustível, que impulsiona um lirismo revolto e belo, contra o estado sistemático e repressor de uma época. Guiada por visões como estas trabalhava a mente auto-destrutiva do poeta Rafal Wojaczek (pronuncia-se "Voiagek"), que suicidou-se aos 26 anos, em 1971. Ele é o centro da biografia fictícia realizada pelo também poeta e diretor polonês Lench Majewski, no longa-metragem de 90 minutos Wojaczek, exibido na quinta-feira, na 24.ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, e conta com uma sessão extra, no próximo domingo, no Cinesesc, às 20h40.Uma história densa, inundada por simbologias e detalhes artísticos, que atraíram, além de cinéfilos, poetas e artistas pelos 14 meses que ficou em cartaz na Polônia, um recorde de tempo em cartaz para filmes locais. "O distribuidor tinha a intenção de deixar o filme em cartaz por cinco dias somente, mas os aficcionados por arte formaram um público tão fiel que prologaram o tempo", lembra Majewski em entrevista à Agência Estado. Para ele, a importância de fazer o filme foi o significado que o poeta tinha para a sua geração. "Era uma época cheia de medo do sistema policial, que fazia uma repressão brutal, e ele era muito corajoso. Ele não calava sua poesia porque não tinha medo de nada, nem de perder a vida", conta o diretor. O diretor resolveu filmar a vida desse poeta logo após escrever a história que serviria de base para o filme Basquiat (1996), de Julian Schnabel, que também co-produziu. "Quando Basquiat morreu, eu morava em Nova York, e imediatamente o conectei à Wojaczek. Pois eram dois homens que enfrentavam os medos de sociedades diferentes: a americana, que temia o fracasso, e a polonesa, que temia a repressão", diz Majewski, e completa: "além disso, fui sempre muito inspirado pela obra de Wojaczek".Wojaczek teve publicados somente dois livros em vida e um terceiro quando já havia morrido. Ele trabalhava exaustivamente cada verso de suas poesias, buscando sempre uma beleza desesperadora, inquietante e complexa, "que sempre dificultou traduções", diz Majewski, justificando o desconhecimento de sua obra em outros países, e a comparação em atitude a artistas como Basquiat e Jim Morrison.Essa paridade dureza/beleza está bem refletida no filme - preto-e-branco -, que narra casos específicos da vida do escritor, interpretado por um também jovem poeta polonês, Krzystof Siwczyk. Cheia de intensidade, estão lá as histórias marginais e impetuosas do poeta-suicida, que odiava vidros porque eles impediam as pessoas de alcançarem algo que buscassem. Por isso vivia se jogando através deles, fossem vitrines de cafés térreos, fossem janelas de 40 metros de altura, que para seu gosto pela morte eram extremamente apetitosas.

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