G. R. ALDO / COMITÉ COCTEA
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Poeta e cineasta Jean Cocteau tem obra resgatada em evento no CCBB

Começa nesta quarta, 1.º, e vai até 26, no Centro Cultural Banco do Brasil, o evento Jean Cocteau – O Testamento do Poeta

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

01 Março 2017 | 03h00

Conta a lenda que Greta Garbo foi convidada pelo dublê de poeta e cineasta Jean Cocteau para assistir à sua versão do conto de Madame Leprince Beaumont, A Bela e a Fera. O ano era 1946, Garbo abandonara o cinema em 1941, mas seguia sendo a esfinge. Na tela, a fera é tão magnética que, quando se transforma em Jean Marais, produz certo desapontamento. “Give me back my beast”, devolva-me a minha fera, teria dito Garbo a Cocteau. 

São muitas as histórias que cercam Jean Cocteau (1889/1963). Erigiram um mito, o do polivalente genial. Como Orson Welles, Cocteau podia dizer que era muitos em um – poeta, romancista, dramaturgo, pintor, coreógrafo, músico. Era natural que o artista múltiplo se interessasse pelo cinema. Era natural, também, que fizesse da poesia a sua ferramenta para investigar a nova mídia – O Sangue de Um Poeta, A Bela e a Fera, A Águia de Duas Cabeças, O Pecado Original/Les Parents Terribles, Orfeu, O Testamento de Orfeu. É uma obra relativamente reduzida, mas se amplia com os roteiros que ele escreveu (Les Dames du Bois de Boulogne, de Robert Bresson), os filmes que grandes diretores adaptaram de suas obras (O Amor, de Roberto Rossellini; Les Enfants Terribles, de Jean-Pierre Melville; O Belo Indiferente, de Jacques Demy) e os outros que influenciou (Hiroshima Meu Amor e O Ano Passado em Marienbad, de Alain Resnais; Os Guarda-Chuvas do Amor, Duas Garotas Românticas e Pele de Asno, de Demy etc).

É tempo de repensar Cocteau e seu legado. Começa nesta quarta, 1.º, e vai até 26, no Centro Cultural Banco do Brasil, o evento Jean Cocteau – O Testamento do Poeta. Além de todos os filmes citados, há também um documentário de Edgardo Cozarinsky, Jean Cocteau, Autorretrato de Um Desconhecido, e uma obra cultuada dos anos 1930, selecionada por sua afinidade com o universo surreal do artista, Zero de Comportamento, de Jean Vigo. Justamente o surrealismo – ele atravessa a obra autoral de Cocteau a partir de Le Sang d’Un Poète. São imagens estranhas, perturbadoras. A mão que masturba, a morte do poeta. O tema da morte se faz presente em Orfeu, em que Jean Marais é enfeitiçado pela morte (Maria Casarès), mas ela o devolve a Eurídice (Maria Déa) com a cumplicidade do morto (François Périer).

A morte, sempre a morte. Ela fascinava Cocteau, mais do que ele a temia. Bem antes do Wim Wenders de Nick’s Movie, o cineasta já sabia que o cinema é instrumento de vida e morte. Permite às coisas e pessoas continuarem existindo como imagem, mas na imagem imutável está a negação da vida. Cocteau foi muito importante na eclosão da nouvelle vague. Presidiu o júri de Cannes que premiou Os Incompreendidos e fez questão de desfilar na Croisette de braço dado com François Truffaut, para sedimentar seu apoio ao movimento. Nem sempre foi compreendido – O Testamento de Orfeu teve pouquíssimos defensores, nos anos que viram consolidar-se Truffaut e Jean-Luc Godard. Vanguardista na arte, o foi também na vida e muito antes da revolução do casamento gay já vivia em regime marital com Jean Marais. Maquiado, o ator empresta o corpo e a voz para esculpir o mistério da fera que seduziu Garbo. A poucos dias da estreia da nova A Bela e a Fera, da Disney, a de Cocteau/Marais tem a magia das obras eternas, que o tempo respeita.

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