Poema amoroso de Drummond ganha o cinema

Conhecida como a "porta de entrada" do Pantanal, Poconé é uma cidade pequena de Mato Grosso, que vive basicamente da atividade agropecuária das fazendas e do turismo ecológico praticado na região. Nestes últimos meses do ano, a rotina do local foi transformada pela presença da equipe de filmagem de O Vestido, novo longa-metragem de Paulo Thiago. Todos os dias, às 6 horas, a trupe movimentava a praça central. Ali era o ponto de encontro de onde saíam carros e caminhões em direção à locação.Inspirado no poema O Caso do Vestido, de Carlos Drummond de Andrade, o filme tem uma parte da ação ambientada numa região de garimpo e em um acampamento de sem-terra. A cidade foi escolhida por abrigar esses dois elementos. O apoio dado pelo governo do Estado, que disponibilizou toda a infra-estrutura necessária, também foi determinante para a escolha, até porque os ambientes poderiam ter sido recriados facilmente em outro local."Quando viemos pesquisar as locações daqui, encontramos um acampamento de sem-terra, com várias famílias agrupadas", contou Thiago. "Ficamos contentes porque tínhamos tudo à mão, as moradias, os extras, o movimento. Mas quando chegamos para filmar, boa parte das famílias havia sido assentada pelo governo e o local estava quase vazio. Tivemos de refazer os nossos planos e trazer mais extras da cidade."Fuga - A estadia da equipe de produção na cidade serviu para registrar o período em que os personagens de Gabriela Duarte e Leonardo Vieira fogem juntos. O Estado acompanhou a rodagem da seqüência em que Gabriela acorda numa caminhonete e tem uma espécie de visão. Ela encontra uma vidente, que lhe prediz um futuro nebuloso. A atriz e diretora de teatro Sura Berditchevsky, afastada há quase duas décadas do cinema, fez uma participação especial interpretando essa figura mística. Mas para entender como Gabriela, Sura e Vieira chegaram até ali, é preciso entender também a gênese do projeto. Tudo começou no fim dos anos 60, quando Paulo Thiago assistiu a O Padre e a Moça, de Joaquim Pedro de Andrade, inspirado no poema O Padre, a Moça, de Carlos Drummond de Andrade. O filme trazia Paulo José no papel do padre e Helena Ignez no da moça. Era uma experiência bem-sucedida na transposição da narrativa poética para a cinematográfica. Caixa de Pandora - Thiago partiu para sua própria tentativa. E escolheu O Caso do Vestido, também de Carlos Drummond, para fazer sua adaptação. É um poema de três páginas sobre um vestido misterioso, pivô de um caso amoroso arrebatador e fugaz. O diretor compara o texto a uma Caixa de Pandora, de tão denso e repleto de conteúdo. "É formidável a maneira como ele vai revelando a história do vestido", conta.A primeira tentativa, em 1967, não deu em nada. Quando estava terminando Policarpo Quaresma - Herói do Brasil, Thiago voltou a se confrontar com a idéia. Conheceu o escritor mineiro Carlos Herculando Lopes, autor entre outros livros de A Dança dos Cabelos, O Último Conhaque e Sombras de Julho (transposto para a televisão e o cinema por Marco Altberg) e viu que estava na hora de levá-la a cabo. Queria um ficcionista para criar o argumento e achou que Lopes tinha o pathos ideal para trabalhar sobre o poema. "Agora, ele vai publicar o argumento em forma de romance", avisa. O roteiro foi escrito por Haroldo Marinho Barbosa, companheiro de cinefilia de Thiago nos anos 60. Sua escolha se justifica pelo fato de terem gostos muito parecidos. Para o diretor, as várias mudanças de narrativa que se processam ao longo da história pediam um roteirista que conhecesse muito bem suas preferências. "Nós sempre conversamos muito sobre filmes e ele conhece e gosta do tipo de cinema que eu gosto." Amantes - O resultado desse processo é a história de um triângulo amoroso. Como no poema, O Vestido começa com a descoberta de um vestido. Três irmãs remexem em um velho sótão e acham a peça intacta, pendurada em um prego na parede. Perguntam à mãe de onde vem e ela conta como foi parar ali. Segue-se a história de um marido que pede à esposa para ajudá-lo na conquista de outra mulher por quem se apaixona perdidamente. Os dois amantes fogem e vivem uma história de amor intensa.Ana Beatriz Nogueira faz o papel de Ângela, personagem que narra a história do vestido e, num ato de amor extremo, deixa o orgulho de lado para ajudar o marido a conquistar outra mulher. Leonardo Vieira interpreta Ulisses, o marido apaixonado que abandona tudo para viver uma paixão arrebatadora. E Gabriela Duarte é Bárbara, a misteriosa mulher que vem de longe para viver uma paixão que nem ela mesma entende. Além de Sura Berditchevsky, há ainda a participação especial de Paulo José.É a primeira vez que Gabriela interpreta um papel grande no cinema. Havia feito uma pequena participação em Oriundi, mas permaneceu em cena pouco tempo. Em O Vestido, ela praticamente atravessa a trama do início ao fim. "Tem sido uma experiência assustadora, no melhor sentido", explica ela. "Sinto que tenho muita responsabilidade e muita exposição também. Mas acho que faz parte e era exatamente o que eu queria."O Vestido está em fase final de rodagem. Depois de passar por Sabará e Belo Horizonte, em Minas Gerais, e Poconé, no Mato Grosso, segue para o Rio de Janeiro. Na capital carioca, Thiago fará todos os interiores do filme, que foram planejados pelo diretor de arte Marcos Flaksman para mostrar a convivência entre presente e passado. "O filme vai um pouco por esse caminho, saindo do presente para cair no passado, e vice-versa, na mesma seqüência." Orçado em cerca de R$ 3 milhões, O Vestido tem patrocínio de BR Petrobrás, Cia. Vale do Rio Doce, TCO Telemat Celular e BNDES. Paulo Thiago pretende estar com o filme pronto para as comemorações do centenário de Carlos Drummond de Andrade. E deverá lançar Poeta de Sete Faces, documentário sobre o poeta mineiro, feito como exercício e estudo para o longa de ficção, em março nos cinemas, para depois levá-lo à televisão em dois episódios.

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