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Poderoro 'Terra Firme' recria a tragédia dos imigrantes clandestinos

Filme do italiano Emanuele Crialese retrata africanos que tentam a vida na Itália

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

10 de outubro de 2013 | 20h02

Há dois anos, o júri do Festival de Veneza, presidido por Darren Aronofsky, atribuiu o Leão de Ouro ao Fausto de Alexander Sokúrov. O júri de Veneza é sempre uma incógnita. Este ano, presidido por Bernardo Bertolucci, premiou o documentário Sacro Gra, de Gianfranco Rosi, com o Leão e o filme, exibido no Festival do Rio, provou que não é melhor de coisa nenhuma. Sokúrov tem seus admiradores, mas, se Aronofsky e seus jurados tivessem feito a coisa certa, Emanuele Crialese teria levado o Leão, não o prêmio do júri, pelo seu belo Terraferma.

Terra Firme. Crialese é conhecido do público graças à Mostra, que exibiu e depois lançou Nuovomondo, Novo Mundo. O outro longa já era sobre imigrantes. Lá, eram italianos que, no começo do século passado, buscavam a fartura na América. Agora, são africanos que se introduzem na vida de uma família de pescadores sicilianos. A Sicília – de novo. A ilha bárbara já fornece o cenário de Salvo, o outro grande filme italiano que também estreia nesta sexta, 11. Representam um outro cinema italiano – austero, de pesquisa, poderoso.

A história de Terra Firme é vista do ângulo de mãe e filho. Numa cena, o garoto parte num passeio de barco com a turista nórdica. Pinta um clima entre ambos. De noite, ele percebe a estranheza, um movimento no mar. Avançam aquelas pessoas que nadam desesperadamente e buscam tomar o barco. A impressão é de um ataque de zumbis. Provoca uma ruptura do casal, com desdobramentos na narrativa. Os zumbis de Crialese são africanos, imigrantes ilegais que buscam o paraíso na Europa, como os próprios italianos buscaram, no passado, o paraíso na ‘América’. O problema é que não existem mais paraísos. A Europa, a Sicília, está em crise, como há cem anos.

Ao repórter, Crialese explicou que seu filme nasceu da indignação que sentiu ao ver, na TV, a história do bote que ficou à deriva com 79 ilegais. Durante três semanas, eles vagaram no mar. Quando chegaram em terra firme, 76 haviam morrido e havia esta mulher, Timnit, cujo olhar o tocou, e mais que isso, atravessou. Crialese contatou-a, mas Timnit não quis lhe contar sua história. “Em vez disso, ela me forneceu subsídios para que eu criasse minha ficção. Por mais verdadeiro que seja o filme, não é um documentário.”

Existem ecos de Stromboli, o clássico neorrealista de Roberto Rossellini com Ingrid Bergman, que também se passava numa ilha desolada. Para Crialese, o espectador é livre para fazer a ligação, ou não. “Não tomei Rossellini como referência.” Para ele, o mais importante é o debate que seu filme pode originar. “Os chamados ‘ilegais’ são vítimas de uma legislação desumana. A lei do Estado é perversa e fere a lei moral da civilidade. Não é decente que se deixem morrer homens, mulheres e crianças no meio do mar, sem prestar socorro.” O que ocorre hoje na Itália, e no mundo, ele diz, é que há uma indiferença muito grande pelo sofrimento alheio. Meu pescador não perdeu seu vetor moral e isso era absolutamente necessário para mim.”

E o diretor prossegue – “O Estado é criminoso, mas a imprensa joga seu papel. São histórias que vendem. Mais importante, seria lutar contra o preconceito. É o que espero estar fazendo com meu filme.” Politicamente correto? “Não julgo nem acuso ninguém. Meu ideal é um espectador capaz de olhar essa tragédia com olhar virgem. Só assim será possível mudar”, sonha o diretor. Seu longa foi indicado pela Itália para concorrer ao Oscar de filme estrangeiro no ano passado. A Academia deve tê-lo achado muito duro, porque Terra Firme não chegou lá. O cinéfilo que conseguir olhar o filme com o olhar puro que o autor deseja vai apreciar a beleza e complexidade da obra. Crialese, Antonio Piazza e Fabio Grassadonia – leia abaixo – abrem as janelas da alma (o nosso olhar) para um novo cinema italiano que vale seguir e admirar.

TERRA FIRME

Título original: Terraferma. Direção: Emanuele Crialese. Gênero: Drama (França-Itália/2011, 88 min.). Classificação: 14 anos.

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