Pingüins revelam bom lado humano

A Marcha dos Pingüins detém hoje o título de filme mais rentável da história do cinema na França, tendo desbancado o antigo titular, O Fabuloso Destino de Amélie Poulin. Além disso, repetiu a façanha nos Estados Unidos, onde se tornou o segundo documentário mais visto no país, atrás apenas do campeão absoluto, Fahrenheit - 11 de Setembro. Nada mal para um filme que acompanha o ciclo reprodutor dos pingüins imperadores durante o inverno antártico. Mas não é tão simples assim. O biólogo convertido em documentarista Luc Jacquet colocou os diretores de fotografia Jérôme Maison e Laurent Chalet durante um ano na base que o governo francês mantém na Antártica. Ele pediu à dupla que colhesse o máximo de imagens dos pingüins, o que lhe permitiria criar a história ficcional da formação de um núcleo familiar.A seguir, a entrevista que Chalet, um dos fotógrafos do filme, concedeu com exclusividade ao Estado, por telefone, a partir de sua casa em Paris.O que Luc Jacquet procurava quando pediu a Jérôme Maison e a você que fizessem a direção de fotografia de A Marcha dos Pingüins?Em primeiro lugar, Luc Jacquet queria criar uma a espécie de lenda, não fazer um documentário. Para isso, precisava de um diretor de fotografia que soubesse fazer documentário e ficção. É o meu caso, fiz muita ficção, com atores. Mas nunca havia feito um documentário de longa-metragem. Ele queria uma equipe que não tivesse vícios.E o que pediu em termos de conceito visual?Quando se assiste ao filme, não dá para saber que tamanho os pingüins têm. Filmamos de modo a fazer com que o espectador os visse da perspectiva deles.Como foi filmar, captar as imagens?Na França, temos uma estação polar na Antártica, Dumont d?Urville. Muito perto dessa base, fica o grupo de pingüins imperadores que vemos no filme. Fizemos um acordo com os cientistas e passamos um ano lá. Éramos um grupo de 30 pessoas, ao todo. Luc Jacquet foi só no início.Ficar lá em condições adversas deve ser muito complicado.Há dois aspectos. O pessoal, pois ficamos longe de tudo, restritos apenas à sociedade científica. A segunda é que são duas pessoas para fazer o filme, longe do diretor e para fazer todas as funções. Não tínhamos nenhum feedback. Tomamos todas as decisões. Houve momentos em que estávamos engajados. Mas havia outros em que não tínhamos idéia do que fazíamos.Que tipo de equipamento utilizaram? Película ou digital?Filmamos com película. Por quê? Porque a máquina é mecânica, mais fácil de consertar em temperaturas baixas. Eu não saberia consertar uma câmera digital. Já tínhamos experiência com filmagens polares, estávamos preparados para filmar em até menos 40°C.Vocês trabalharam com referências?Não exatamente. O nosso problema mais importante era como fazer o espectador enxergar sob a perspectiva do pingüim, como fazer isso de uma maneira muito próxima. Os pingüins fizeram seu próprio roteiro, porque eles estavam vivendo a vida deles. Filmávamos todos os dias para dar material a Luc e ao montador.Com quanto material voltaram?Voltamos com 1.020 horas de filme. Filmamos A Marcha dos Pingüins e mais dois documentários ambientados no verão antártico. Do filme mesmo, acho que foram 70 horas.O que acha que fez o sucesso de A Marcha dos Pingüins?Acho que é a forma de filmar e a montagem. Foi feito como uma história. Acho que as pessoas podem se identificam. Engraçado, há duas semanas, eu dei uma entrevista na televisão e me perguntaram a mesma coisa. Intelectuais tentavam explicar como os pingüins são parecidos com os homens, com a boa face do ser humano. Penso que as pessoas ficam surpresas, com todas as guerras que acontecem hoje em dia.

Agencia Estado,

13 de janeiro de 2006 | 10h46

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