Cine BH
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Pierre Léon será a atração da Mostra Cine BH, em agosto

O exigente crítico e cineasta francês vem ministrar 'master classes' que ilustram suas ideias nada convencionais

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

25 Julho 2017 | 20h36

Todo ano a Mostra Cine BH traz importantes convidados internacionais. Nos últimos anos, vieram Tag Gallagher, Lucrecia Martel, Adriano Aprà. Este ano, vem o francês Pierre Léon. A Mostra, que tradicionalmente ocorre mais para o fim do ano, foi antecipada para agosto, entre os dias 22 e 28. Nascido na Rússia, ator, diretor, crítico. Léon vem ministrar master classes. Escolheu três filmes - Cluny Brown, de Ernst Lubitsch; A Bigger Splash, de Jack Hazan; e Le Camion, de Marguerite Duras, esse, ainda em negociação. Como crítico, escreve na Traffic, criada por um dissidente de Cahiers du Cinema, Jean-Claude Biette - a quem, aliás, dedicou um filme. Léon não tem muito apreço pelos Cahiers - “Acabou (a revista). Não é mais nada.”

Ator? Você o encontra nos próprios filmes, ou nos filmes de amigos. Não é um diretor comercial. Faz biscoitos finos que raramente chegam ao mercado brasileiro. Dois Rémi, Dois foi um de seus raros filmes a passar aqui. Um exercício intelectual, como tudo o que faz. Uma livre adaptação de Dostoievski, autor ao qual é chegado, mas não necessariamente por ser russo. “Minha mãe o achava tagarela. Eu o admiro pela incrível capacidade de escavar a natureza romanesca do homem, essa maneira de ir o mais fundo possível até encontrar esse ponto quase impossível em que a compaixão avança com sua dialética, a crueldade. Isso também se encontra em (Rainer Werner) Fassbinder.”

Pierre Léon vem falar sobre som - a narração em off, da qual não é muito afeito. É muito interessante o que diz sobre a linguagem fílmica. “O espectador vê o filme como uma experiência real, contínua, no presente. Se não existirem informações adicionais, relativas ao tempo e ao espaço, no nosso imaginário é sempre o aqui e agora.” Real? “O cinema é contemporâneo da psicanálise, da interpretação dos sonhos, de Freud. É sonhar acordado.” E é, sim, a melodia do olhar, mas não exatamente no sentido que lhe atribuiu Nicholas Ray. Em 2008, Léon adaptou outro Dostoievski, O Idiota. Como não ia conseguir reunir os atores ao mesmo tempo, bolou um esquema. “Na maioria das vezes, filmava com um ator, dando-lhe a réplica, ou então algum assistente. Ao montar o material, dei-me conta da importância do olhar para a própria decupagem. Foi algo revelador para mim.”

Para quem filma com poucos, às vezes nenhum recurso, Léon considera o ato de filmar uma adequação à realidade. Prefere a montagem. É aí que o filme toma forma. Uma de suas criações mais famosas é uma parceria com a atriz Jeanne Balibar. Baseados na série Concerts à Emporter, criaram outra série de peças de teatro, disponível na internet com o título Théâtre à Emporter. Par Exemple, Électre é exemplar. Jeanne canta e atua, o texto de um e-mail explicando o projeto para a produtora Arté escreve-se na tela em tempo real, etc. A questão da plataforma vira o filme. E o estilo não é nem um pouco realista - a teatralidade impera. O fato de ser ‘miúra’ não impede Léon de atrair grandes nomes do cinemão. Emmanuelle Beart está em Électre.

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