Pierre Étaix fala de humor e da homenagem que recebe do CCBB

Ator ganhou o Oscar de curta-metragem de 1962

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

10 Junho 2014 | 19h58

Ele ganhou o Oscar de curta-metragem de 1962, por Joyeux Anniversaire, no começo de sua carreira como realizador. Há seis anos, a Academia de Hollywood lhe outorgou outro Oscar - de carreira. Dois Oscars não representam pouco, mas Pierre Étaix os possui em sua estante. Pierre quem? Pois para o público jovem o cineasta de 86 anos é pouco conhecido, senão desconhecido. Embora tenha sido assistente de Jacques Tati em Meu Tio e tenha participações como ator em obras de Robert Bresson (Pickpockett), Louis Malle (O Ladrão Aventureiro) e Federico Fellini (Os Palhaços), Étaix permanece um segredo de poucos. Não por sua vontade, ele se apressa a esclarecer, numa entrevista por telefone, de Paris.

"Tive a infelicidade de ter tido alguns percalços em minha carreira. Pays de Cocagne (de 1971) teve problemas com a Justiça. Depois dos eventos de Maio de 68, tive a ideia de filmar os franceses em férias, ou em campanhas publicitárias e eleitorais. Muitas pessoas que haviam concordado se sentiram ludibriadas com o uso de sua imagem. Sofri não poucos processos, e meu produtor me abandonou. Desde então, fiz somente um filme como diretor e tive algumas participações como ator. Mas nunca deixei de trabalhar, mesmo que os projetos não se concretizassem. Arranjei agora um produtor e preparo um espetáculo que espero poder estrear até o fim do ano. Também preparo um livro de memórias, em que conto episódios bizarros que ocorreram comigo. Tudo isso está me deixando bem animado, confesso."

O velhinho que faz essas declarações com voz firme é um grande do humor. No CCBB, começa hoje um ciclo que resgata sua obra inteira. Curtas, longas. O revival de Pierre Étaix começou em Cannes, em 2010, com a versão restaurada de Esse Grande, Grande Amor, que havia concorrido no maior festival do mundo em 1969.

Este ano, Cannes Classics voltou a homenagear o ator e diretor programando Yoyo, de 1965, em Cannes Classics. O que Étaix diria hoje ao espectador que vai descobrir sua obra? “Que desfrute. Mas espero que os filmes falem por eles mesmos, sem necessidade de apresentação.” Pierre Étaix, nascido em 1928, começou sua carreira no music-hall. "Consegui sobreviver a ele", diz. "O music-hall morreu. Hoje existem a stand-up comedy e o humor de situações. Nada contra, mas pertenço a uma geração que assimilou as lições do burlesco norte-americano. Fui e ainda sou do circo. São lições muito profundas, que permanecem com a gente."

O Pretendente, Yoyo, Rir É o Melhor Remédio, Esse Grande Grande Amor. Podem-se acrescentar mais uns dois ou três. A filmografia de Pierre Étaix é parcimoniosa em termos de longas, mas lhe deu prestígio (e prêmios). Como assinala Jean Tulard no Dicionário de Cineastas, mais até que Jacques (Mr. Hulot) Tati, Étaix assimilou o burlesco e soube encontrar seu charme em obras com um recorte bem pessoal. Seu segredo? “Sempre foi a simplicidade. Toda vez que ia iniciar um projeto, fosse curta ou longa, o que fazia era me desembaraçar do supérfluo para me concentrar no essencial.” O repórter observa que Blake Edwards, criador do Inspetor Clouseau, lhe disse a mesma coisa.

As palavras de Edwards - "Inclino-me à simplicidade, e sempre me surpreendo quando as pessoas veem nisso um signo de sofisticação.” Edwards morreu em 2010, aureolado pela reputação de mestre da comédia sofisticada. "Entendo o que ele quis dizer. Ser simples é a coisa mais difícil que existe. Desconcerta as pessoas.” Ele trabalhava para os Rothschild quando teve a ideia de Yoyo. "Pensava, na minha ingenuidade, como devia ser difícil ser rico, ter tanto dinheiro para gastar." Foi assim que surgiu a figura desse homem muito rico, que tem tudo. Um palácio, jardins, um bosque, um lago, dezenas de servos. Tudo - menos o amor. Ele olha uma foto em sua escrivaninha. Reproduz uma amazona. Chega o circo e sua amazona é a garota da foto, que tem um filho, Yoyo. Sob a máscara de palhaço, Yoyo se assemelha ao milionário, e vai herdar seu palácio, quando estiver em ruínas.

Ideias simples - boy meets girl em Esse Grande, Grande Amor. Casam-se, mas um dia ele contrata uma secretária e tem saudade da liberdade amorosa do tempo da juventude. Entre um e outro, situa-se Rir É o Melhor Remédio, com seu humor fragmentado, distribuído em quatro histórias. A do homem que tenta ler um livro sobre vampiros ao lado da mulher, que dorme, e a sensação é de que ele não consegue distinguir ficção e realidade; a tarde no cinema que se transforma num ataque da sociedade consumista, à maneira de Jacques Tati em Meu Tio e Playtime; e mais duas tramas que parecem faces da mesmas moeda - uma reproduz um dia na cidade, a outra, um dia no campo. Há inferno lá, como cá. "Gostava de trabalhar com Jean-Claude Carrière, que era pródigo em ideias. Compartilhamos o Oscar por Feliz Aniversário. Rir É o Melhor Remédio nasceu do relato que um amigo me fez. Ele morava nos Champs Elysées e não conseguia dormir porque os carros barulhentos pareciam invadir seu quarto. Levei a ideia a Carrière e ele imediatamente visualizou os episódios da cidade e do campo. A vida na cidade pode ser estressante, mas a vida no campo tem significados diferentes para um casal urbano, um caçador e um fazendeiro."

Nos últimos anos, Étaix tem acompanhado seus filmes - restaurados - em eventos na Argentina, nos EUA, no México e na Rússia. Encanta-se ao perceber que seus gags, além de abundantes, continuam divertidos. O slapistick - pastelão - tem sido sua paixão desde que descobriu Charles Chaplin e o Gordo e o Magro. Seus filmes têm cenas de tropelias, exploram a violência física. Mas ele sempre tenta conter o recurso fácil por uma outra paixão que também possui - a de Buster Keaton. O homem que nunca ria rejeita o sentimentalismo e encadeia seus gags por meio de uma lógica implacável. “Não se faz humor sem dedicação, sem ensaio. É preciso praticar muito para atingir a simplicidade.” De Buster Keaton, Pierre Étaix herda algo mais. Ele sabe ser lírico, mas também é um palhaço meio triste.

Como ator, até por não ser, ele só trabalhou com diretores que admirava. Uma de suas melhores experiências foi com Fellini, mesmo que não estivesse de acordo com o foco dele sobre o circo em Os Palhaços. "Federico sempre teve a fama de mentiroso e de ser alguém que trapaceava com o espectador para chegar à sua verdade particular. Ele fez o filme para TV e mais que se ajustar à mídia tenho a impressão de que a ajustava a suas necessidades e estilo. Era extraordinário vê-lo trabalhar e extrair dos figurantes aquilo que não sabiam que podiam dar.” Pierre Étaix conta que diminuiu muito suas idas ao cinema. Um raro artista que ainda o galvaniza não tem nada a ver com a comédia. É Clint Eastwood. “Ele desenvolveu uma máscara trágica. E, mesmo quando não é protagonista dos próprios filmes, propõe experiências que valem a pena compartilhar." Na sexta, às 19 h, o crítico francês Stéphane Goudet, da revista Positif, terá um encontro com o público, no CCBB, para falar sobre Pierre Étaix. A palestra será gratuita.

O CINEMA DE PIERRE ÉTAIX

CCBB. Rua Álvares Penteado 112, tel. 3113-3651. Grátis. De 11 a 22/6. Na 6ª, 19h, debate com o crítico francês Stéphane Goudet.

Principais filmes

'Joyeux Anniversaire'

De 1962, vencedor do Oscar de curta-metragem

'O Pretendente'

Longa-metragem de 1962, sobre um homem apaixonado que busca seduzir a mulher a quem ama

'Yoyo'

De 1965, sobre milionário que tem tudo que um homem pode querer, menos amor

'Rir É o Melhor Remédio'

De 1966, comédia em episódios

'Esse Grande, Grande Amor'

De 1969, sobre marido, mulher e a secretária

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