Piauí faz seu primeiro longa-metragem

O Piauí fica comprimido entre doisbadalados focos culturais nordestinos: o Ceará e o Maranhão.Incômodo aposto costuma defini-lo nas enciclopédias: "Estadomais pobre do Brasil." Para dificultar a vida (ou pelo menos oturismo) na terra de Torquato Neto, o Estado dispõe de apenas 66km de litoral, contra 573 do Ceará e mais de mil da Bahia. Nahora de escolher o itinerário da Caravana da Fome, o presidenteLuiz Inácio Lula da Silva optou por Guaribas, no sertão doPiauí. Problemas operacionais inviabilizaram "a mais pobrecidade sertaneja" e Lula e seus ministros dirigiram-se àperiferia de Teresina, capital do Estado. Depois ao Recife e aoVale do Jequitinhonha, em Minas. Para ajudar a mudar a imagem que o País tem do Piauí, ocineasta Douglas Machado e a produtora Suzane Jales uniram-se aofotógrafo sueco Mattias Högberg e realizaram Cipriano, oprimeiro longa 100% piauiense. O filme está pronto. Ou melhor,quase. "Na verdade, o filme está parcialmente pronto, já queainda não conseguimos recursos para ampliá-lo e lançá-lo nosuporte 35 mm", explica Suzane Jales. Cipriano lembra (em seuestilo e história) o cearense O Sertão das Memórias, de JoséAraújo (melhor produção latina no Sundance Festival). O filmepiauiense mantém parentesco também com Crede-Mi, de BiaLessa e Danny Roland. Suzane lamenta que, até agora, "o filmesó tenha sido exibido (em formato digital) em Teresina e, mesmoassim, em condições especiais e de alto custo". A estréia se deu num shopping center da capitalpiauiense. "Foi muito trabalhoso", conta a produtora. "Comosó dispomos de versão do filme em Super 16, Beta e DVD, tivemosde lançá-lo neste formato. Conseguimos atrair muitosespectadores, curiosos para ver nosso primeiro longa, nossosatores, nossa gente e nossa cultura nas telas." A experiência,porém, não pôde ser repetida em outras cidades, pois "para seexibir um filme em suporte digital, os custos são muito elevados, proibitivos até. Tivemos de alugar o equipamento especial (umDVD para tela cinematográfica) num Estado que dispõe de umaúnica alternativa". Cipriano, que teve apoio técnico e financeiro da Suécia,é uma fábula poética. Para acompanhá-lo, o espectador precisa sedesgarrar do conforto narrativo proporcionado por filmestradicionais. Aqueles com começo, meio e fim, nesta ordem. Aomostrar a travessia do sertão piauiense por dois jovens queconduzem o pai morto a um cemitério localizado à beira-mar,Douglas lançou mão de narrativa que alterna realidade e sonho eé pontuada por cantos religiosos. O velho vaqueiro Ciprianosonhou, por toda a vida, conhecer o mar. Os filhos, Bigail(Vilma Alcântara) e Vicente (Chiquim Pereira), resolvemempreender a difícil viagem. No caminho, Bigail, sertaneja forte, e o irmão, quase cego e meio fraco da cabeça, encontrarão aMorte (representada pelo bailarino Fernando Freitas), três anjosda guarda (as rezadeiras Dona Rosa, Dona Maria e Dona Cotinha) edois Demônios (Jorge Sankler Carvalho e Jorge LucianoCarvalho). A busca do cemitério marítimo é longa. O velho Cipriano(interpretado com nobreza por Tarciso Prado) passou a vidaatormentado por sonhos e pesadelos. A viagem, envolta emressonâncias bíblicas, se construirá como se fosse mais um sonhodo vaqueiro. O filme dura 60 minutos (chega a 70 com imagens domaking of e créditos). O diretor Douglas Machado, de 36 anos,mescla tempos, fantasia e realidade. Em 1995, o cineasta colheudepoimentos de rezadeiras e sertanejos (sobre sonhos, sobre amorte e os cerimoniais que a circundam), gravou incelências ebenditos. As incelências são orações feitas para proteger a almado morto em sua passagem para o outro mundo. Os benditos,orações de alcance mais amplo e podem ser rezados para alcançaruma graça. Geralmente são as mulheres que rezam as incelências.No filme, os dois feitios de oração têm papel de destaque. Durante 20 dias, em agosto e setembro de 1997, Douglas esua equipe piauiense-sueca realizaram as filmagens com atores deTeresina e participação de habitantes do sertão profundo. Alémda fotografia de Mattias Högberg, outro sueco, Peter Lloyd,assina a trilha sonora. Douglas Machado garante que concebeu Cipriano antes deconhecer O Sertão das Memórias. Depois, viu o filme eidentificou nos dois a mesma força geradora, o desejo deretratar o imaginário popular do sertão nordestino. A biografiados dois cineastas também tem pontos em comum. José Araújoestudou cinema nos EUA e trabalhou (como técnico) em filmes dePercy Adlon e Gregory Nava. Douglas Machado fez cursos deespecialização em emissoras educativas da Holanda, trabalhou naEspanha e na Suécia. Suzane Jales, além de produtora do filme, é sua maisempenhada divulgadora. Ela não se conforma em ver "o primeirolonga do Piauí na prateleira". Até "por nosso pioneirismo,merecemos ampliar o filme para o suporte 35 mm e mostrá-lo nosfestivais nacionais e internacionais. E também nos cinemas"."Desde 1977 estamos na batalha por este filme. Já conseguimosfilmar, editar e lançar em suporte digital. Não vamos desistir.Sei que é difícil fazer cinema no País inteiro, imagine noPiauí. Aqui, não contamos com grandes empresas para patrocinarnossos projetos através das leis de incentivo. Mesmo assim,vamos seguir em frente." Suzane conta que a equipe de Cipriano já mandou cópias,em vídeo, para festivais de vários países. "Ao verem oresultado final, nos convidam para participar, mas exigem oenvio de cópia em 35 mm." Para fazer o transfer do super 16para o 35 mm, a Trinca Produções, responsável por Cipriano,necessita de R$ 90 mil. "Estamos dispostos até a oferecer osdireitos do filme por prazo de cinco anos ao produtor que quiserbancar essa finalização", propõe Suzane. "Afinal, nossaintenção é mostrar que o Piauí tem muitas histórias paracontar." Quem quiser apoiar o primeiro longa piauiense devemanter contato com a Trinca Produções pela Caixa Postal 2001(Agência Riverside), Teresina-PI- 64.049-970, pelo fone (86)222-8248 ou pelo e-mail trincafilmes@uol.com.br.

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