'Philomena' torna crível história dramática, quase inverossímil

Drama real contado de maneira sólida, com bons atores

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

13 de fevereiro de 2014 | 19h58

Philomena foi um dos primeiros filmes apresentados no Festival de Veneza do ano passado, e logo crítica e público se apaixonaram. Havia motivos de sobra para tanto: uma grande história, dirigida por Stephen Frears, de maneira sóbria e com pontas de humor. Acima de tudo, contava a presença da grande Judi Dench representando o papel-título com a classe de sempre. Com tudo isso a favor, o filme é quase irresistível.

 

 

 

 

Pode-se acrescentar ainda um detalhe – é baseado em personagem real e fala de uma história que de fato aconteceu, embora seja, aos olhos de hoje, literalmente inverossímil. Como acreditar que crianças, filhas de mães solteiras, pudessem ser delas separadas e vendidas a pais adotivos, em plenos anos 1950? Parece coisa de Dickens, do século 19. Pois bem, tudo isso é verdade e está descrito no livro The Lost Child of Philomena Lee (o filho perdido de Philomena Lee), que inspira o filme. Aliás, Judie Dench disse em entrevistas que, preparando-se para o trabalho, havia conhecido a verdadeira Philomena Lee, então com 84 anos, e ficara impressionada com seu caráter forte.

É preciso ter um caráter e tanto para fazer o que ela fez. Acolhida num convento da Irlanda no início dos anos 1950, e logo em seguida separada do filho pequeno, Philomena resolve ir atrás do seu rastro 50 anos depois. Meio século! E o faz com a ajuda de um jornalista, Martin Sixsmith (Steve Coogan), autor do livro.

Lógico que uma busca dessas comporta muitas dificuldades, cenas de emoção e encontros pungentes. Ciente de que estava diante de material de alta combustão melodramática, Frears o tempera com um admirável senso de humor. Tudo é bastante medido e controlado para que não descambe para um melô descabelado, como se costuma dizer. E, nesse sentido, do uso do riso distanciado, Frears é um mestre. Anda na corda bamba sem olhar para baixo e conta com um elenco controlado, dame Dench à frente de todos.

Claro que, além do perigo da sobrecarga emotiva, há outras questões em jogo. A principal delas: quem não fica lá muito bem na fita é a Igreja Católica na Irlanda, que se vê acusada de nada menos que tráfico de bebês, tirados de mães miseráveis e vendidos a casais endinheirados. Com a melhor das intenções, dizem. Mas, como se sabe, o inferno está cheio delas. Assim como Anthony, filho de Philomena, outros bebês teriam sido vendidos a pais adotivos nos Estados Unidos. Não é uma história lá muito bonita. Frears a expõe de maneira nada panfletária, e nem por isso menos incisiva.

A trama faz rir e faz chorar. Emociona, sem perder o gume no que tem de ser cortado e criticado. É exemplo de um cinema sólido, de roteiro lapidado, que conta sua história linear e bem estruturada, interpretada por um elenco sólido e dirigido por um cineasta que já não tem nada a provar. Cinema tradicional de muito boa qualidade.

Falta-lhe invenção? Sim. Falta uma inquietação a mais? Também. No fim, de mania em que se tornou no início do festival, Philomena saiu de Veneza apenas com o troféu de roteiro que, bem pensado, é o mesmo que o filme tem de melhor, além de Judi Dench. Esta é fora de série.

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