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Philippe Garrel busca formas mais vivas de representação em 'Amante Por Um Dia'

No início do filme, o diretor abre com uma ruptura amorosa e um casal que faz sexto

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

19 Março 2018 | 06h00

Numa entrevista por telefone, de Paris, Philippe Garrel conta a gênese da abertura de seu belíssimo Amante Por Um Dia, que estreou na quinta, 15. Abre-se com duas cenas muito intensas. Uma ruptura amorosa – a garota que é expulsa de casa pelo namorado e sai aos prantos – e um casal que faz sexo.

Alfred Hitchcock, o maior dos cineastas, segundo Garrel – mas não seu mestre –, alertava François Truffaut sobre o risco de se começar um filme num patamar muito alto. Hitchcock falava de suspense – como mantê-lo, nesse caso? Garrel conta. “Esse começo surgiu muito naturalmente. O casal veio de um sonho que tive. Aos 69 (fará 70 em abril) ainda sonho com sexo (risos). A garota é mais real. Acordei de madrugada com o som de uma mulher chorando e carregando uma mala. Foi tão forte que eu sempre soube que haveria de colocar aquilo num filme.”

Um professor universitário, de 50 anos, tem um affair com uma estudante. E ocorre de sua filha, tendo terminado com o namorado, voltar a morar com ele. Nosso herói se vê às voltas com duas jovens mulheres. Éric Caravaca é quem faz o papel. A filha é a filha do próprio Garrel, Esther. “Tem gente que acha que o filme é autobiográfico por causa da presença de Esther. Mas eu dirigi Louis (Garrel), que também é meu filho, mais de uma vez, e ninguém me veio com esse tipo de questão. Acho que revela alguma coisa do mundo em que vivemos, a questão dos gêneros. Como homem, posso dizer que entendo bastante o comportamento masculino. Já a mulher é sempre mais fantasiosa. Queria muito investigar o comportamento feminino de uma forma realista, acurada. Esse ponto de vista feminino me veio pelo roteiro. Tive duas colaboradoras, e uma delas é Caroline Deruas, minha mulher”, explica o diretor.

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Há um terceiro crédito de roteiro – para Jean-Claude Carrière, o escritor que foi roteirista na fase final de Luis Buñuel. “Carrière tornou-se imprescindível para mim. Como roteirista, dramaturgo, ele domina a escrita para cinema, mas não estou falando disso. Carrière tornou-se uma referência paterna muito forte para mim. Não tenho nenhum problema em admitir que a maior influência em minha vida foi a de meu pai. Sou filho de atores, Maurice e Martine Garrel, e acho que por isso sempre tive uma relação muito forte com meu corpo. Maurice trabalhou com grandes diretores – Truffaut, Costa-Gavras, Claude Chabrol, Claude Sautet, Jacques Rivette. E ele morreu aos 88 anos, em 2011. Tinha uma vasta experiência de vida, e de cinema. Embora já tivesse mais de 60 anos, senti-me órfão. Carrière veio preencher um vazio.”

Psicanálise elementar, caro leitor. “Truffaut dizia que o amor é o grande tema, e você pode dizer que Amante Por Um Dia é um filme sobre o amor, sexo, traição. Mas, para mim, o tema é a psicanálise, essa vontade de ir fundo nos gêneros.” Essa questão do gênero ultrapassa sexo – homem, mulher. Nos áureos tempos do vídeo, as locadoras dividiam os filmes por gêneros – comédia, drama, ficção científica, cinema brasileiro. Assim como o cinema do Brasil se constituía num gênero, pode-se dizer o mesmo do francês, segundo Philippe Garrel. Filmes em preto e branco, com muita conversa, muito sexo. Sobre o preto e branco, o diretor gosta de teorizar. “Truffaut dizia que os filmes em PB eram mais bonitos, e eu entendo perfeitamente. Veja que já existiam experimentos coloridos no tempo de (Georges) Méliès, mas o preto e branco, que faz a beleza das cenas filmadas pelos (irmãos) Lumière, sempre teve um embasamento muito forte na realidade.”

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Curiosamente, o ‘chamado realista’ foi o tema da Mostra Aurora deste ano e, desde quinta, 15, o evento substitui a grande retrospectiva de Luchino Visconti no CineSesc. É interessante ouvir o que Philippe Garrel tem a dizer sobre influências. “Adoro Truffaut, (Jean-Luc) Godard, (Michelangelo) Antonioni e (Ingmar) Bergman, mas não penso neles quando estou filmando. Vou dizer uma coisa que pode parecer contraditória. Leciono cinema no Conservatório (de teatro). E todo dias meu método é muito prático. Discuto os autores com eles (os alunos) e depois vamos para a ruas filmar pequenas cenas ou improvisações baseadas em Jean Eustache, John Cassavetes, Jean Renoir. Eles adoram, e eu também. Fica uma coisa muito viva. Muitos desses alunos terminam integrando minhas equipes de cinema. Muitos estão em Amante Por Um Dia.”

Garrel não acredita em referências porque, como diz, “se você começa a imitar o estilo dos outros vira um acadêmico. É melhor inspirar-se diretamente na realidade, mas sem querer reproduzi-la.” 

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Esse compromisso com o real leva a um outro tema – o cinema político. “Estamos vivendo uma época de alienação, de despolitização muito forte. E não é de agora. Tive muitos problemas para levantar os recursos para Amantes Constantes. Ninguém queria um filme sobre Maio de 68. Sinto dizer que o mundo virou antirrevolucionário.” Mas ele insiste, e em Amante Por Um Dia o professor discute política, a Guerra da Argélia, com os alunos. “Na época, o assunto era tabu na França. Alguma referência num Godard, O Pequeno Soldado. Quem teve coragem de enfrentar o problema foi Alain Cavalier. L’ Insoumis (Terei o Direito de Matar?), com Alain Delon, é uma obra-prima. E antes ele já tinha feito Le Combat Dans L’île (Paixões e Duelo), que também é um grande filme.”

Ainda um elogio de Garrel – para seu ator, Éric Caravaca. “Conheci Éric, e comecei a admirá-lo, graças a meu pai, que foi seu mentor.” Tudo se completa no imaginário de Philippe Garrel. E, sim, Amante Por Um Dia é um grande filme que você já pode ir reservando como um dos melhores do ano.

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