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Peter Jackson propõe em 'O Hobbit' um jogo com o cinéfilo

No longa que estreia nesta sexta-feira, 14, espectador só precisa entrar na magia que leva aos primórdios da narração

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

14 de dezembro de 2012 | 07h00

Peter Jackson faz história com O Hobbit: Uma Jornada Inesperada, mas é possível que pouquíssima gente se dê conta disso. O primeiro filme feito e projetado em 48 quadros por segundo, velocidade que dobra aquela a que o espectador está acostumado e acha sua plena justificativa nas cenas de batalhas. Em São Paulo, apenas uma sala, no Shopping JK Iguatemi, exibirá O Hobbit dessa maneira. Você poderá optar por vê-lo em 2 e 3-D. Escolha o formato, a tela, e viaje nas imagens e nos sons.

A frase inicial do livro de J.R.R. Tolkien vem um pouquinho atrasada, refere-se ao buraco no chão em que vive o hobbit. Muitos andam escrevendo que o filme demora para engrenar. Tudo depende de quem vê. Tanto quanto Tolkien, que buscava no mito uma tentativa de compreensão das origens, Jackson se volta para um dos mitos fundadores do cinema - John Ford. As imagens do condado lembram a Innesfree de Depois do Vendaval e quando Bilbo, pressionado por Thorin, líder dos anões, explica por que o está ajudando, a justificativa não poderia ser mais fordiana. Remete à Odisseia. Bilbo quer, sim, voltar para casa, mas se une ao anões porque eles não têm casa, e precisam de uma.

O Hobbit tem tecnologia de ponta, paisagens de cortar o fôlego, batalhas eletrizantes. E tem o Gollum, que introduz o anel na história. O livro é fininho, mas Jackson o está transformando numa nova trilogia, com elementos e personagens emprestados de O Senhor dos Anéis. Reaparecem Gandalf, Bilbo adulto, Frodo, Galadriel, o Gollum. O tema é a construção do olhar. O olhar oblíquo de Gandalf e Thorin, que conhecem os homens, o olhar de Galadriel, que não precisa se fixar em Gandalf para conversar mentalmente com o mago. A troca de olhares de Bilbo jovenzinho e do Gollum. Eles não se veem ou o Gollum não vê Bilbo, tornado invisível pelo poder do anel. Mas toda a construção - do cinema, do mundo - passa pela compreensão de Bilbo e pelo desespero do Gollum, que acaba de perder seu precioso anel.

É um belíssimo filme. Seus ‘defeitos’ são qualidades. Pois Peter Jackson não teme o espaço nem o tempo. Chega a propor um jogo e o cinéfilo, que esculpe o tempo com Andrei Tarkovski, só precisa entrar nessa magia que remete aos primórdios da narração, à história. Ela está apenas começando, contada para crianças, mas, no fundo, visa ao público adulto. Pois tudo está e vem do olhar, que transforma e é transformado. Se você acha que não vale a pena fazer esse movimento, a batalha do filme estará perdida. Mas, se fizer, depois do magnífico voo dos pássaros, você já começará a sonhar com o 2, em dezembro de 2013.

COTAÇÃO: Ótimo

O HOBBIT: UMA JORNADA INESPERADA 

Título original: The Hobbit: An Unexpected Journey. Direção: Peter Jackson. Gênero: Fantasia (EUA/2012, 166 min.). Classificação: 10 anos.

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