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Peter Jackson, o 'mago dos blockbusters', lança sequência da bilionária franquia 'O Hobbit'

Diretor garante que 'A Desolação de Smaug' justifica a divisão da obra de J. R. R. Tolkien em três filmes

Ian Spelling, The New York Times

11 de dezembro de 2013 | 03h00

Era uma vez Peter Jackson classificado como um desconhecido garoto prodígio neozelandês fazendo filmes de horror perturbadores, de baixo orçamento, como Trash – Náusea Total (1987), Feebles (1989) e Fome Animal (1992). Depois veio o aclamado drama baseado em fatos reais Almas Gêmeas (1994). Agora, o cineasta de 52 anos é o mago do blockbuster, tendo dirigido O Senhor dos Anéis (2001-2003), King Kong (2005) e O Hobbit: Uma Jornada Inesperada (2012). A continuação, A Desolação de Smaug, estreia no País na próxima sexta-feira, e terá ainda outra no ano que vem There and Back Again.

“É espantoso quando você volta a quem eu era quando fiz aqueles primeiros filmes”, diz Jackson por telefone durante uma pausa na edição de A Desolação de Smaug, em Wellington, na Nova Zelândia. “Jamais teria sonhado com o que está havendo agora. Sempre tive um enorme amor pela fantasia, pelos filmes de Ray Harryhausen, sempre sonhei em fazer algo assim”, ele continua. “King Kong foi um sonho. Assim, de certo modo, estou tornando meus sonhos realidade.”

Seu primeiro episódio de O Hobbit faturou mais de US$ 1 bilhão em escala mundial. Entretanto, alguns críticos e fãs o acharam excessivo – muito longo, especialmente em suas sequências de lutas – e outros reclamaram das polêmicas decisões de Jackson de filmar em 48 quadros por segundo e expandir de duas para três partes sua planejada adaptação do romance de J. R. R. Tolkien.

O diretor/cocriador/coprodutor não pede desculpa a ninguém por suas decisões. “Bem, eu fiquei satisfeito”, diz ele. “Sempre fico. Estou sempre fazendo um filme para mim. Assim, cada decisão que tomo durante todo o processo, da escolha do elenco à escrita com Phil (Philippa Boyens) e Fran (Walsh, seu parceiro), e às escolhas que faço como diretor e em termos de design e efeitos visuais, até a edição do filme... Está tudo lá porque são decisões que eu tomei. Sempre me coloco na posição de 'O que eu queria ver? Do que eu gostaria?”, diz Jackson. “Obviamente muita gente gostou, porque ele não teria rendido US$ 1 bilhão se as pessoas não tivessem gostado.”

“Em termos dos três filmes”, acrescenta Jackson, “acho que A Desolação de Smaug é o que deixará claro o motivo pelo qual fazer três filmes foi uma boa ideia. Ficará óbvio, quando as pessoas virem, onde estamos indo, o que estamos fazendo e como estamos fazendo.” A Desolação de Smaug começa onde Uma Jornada Inesperada termina. Ele mantém o foco no hobbit Bilbo Baggins (Marton Freeman) quando ele encontra toda sorte de amigos, inimigos, maravilhas e horrores enquanto prossegue com Thorin Oakenshield (Richard Armitage) e seu bando de anões na que buscam resgatar sua terra, as Montanhas Solitárias, e seu ouro do dragão infernal, Smaug (voz de Benedict Cumberbatch).

 

 

Jackson mal consegue conter o entusiasmo com os novos personagens. Não daria para sustentar três filmes, diz ele, somente com o conjunto de 13 anões, Bilbo e o mago Gandalf (Ian McKellen). “Certamente chegou a hora. Assim, nós temos Thranduil (interpretado por Lee Pace), Legolas (Orlando Bloom), Tauriek (Evangeline Lilly), Bard (Luke Evans), o Mestre da Cidade do Lago (Stephen Fry), e Alfrid, seu criado (Ryan Cage). Eles criam diferentes formas de complicação porque, em certos aspectos, em sua narrativa simples, este é o empenho destes anões paras recuperar sua terra natal do dragão. Mas, por baixo dessa história, está o fato de que a única razão para o dragão estar naquele lugar é que ele está cheio de ouro.”

Embora seja uma luta para reaver sua casa, prossegue o diretor, se vencerem o dragão, teremos 13 anões sentados sobre uma pilha de ouro. “E é isso que vai atrair muita atenção.” Em outras palavras, mesmo que Bilbo e os anões derrotem Smaug, isso só coloca outros elementos em ação. Muitas pessoas vão se interessar por saber quem são eles, onde estão e o que escondem dentro daquela montanha.

Uma das cenas mais antecipadas de A Desolação de Smaug é a sequência que opõe Bilbo à horda de aranhas venenosas. Reminiscente da sequência de O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei (2003) em que Frodo é enredado na teia da aranha gigante Shelob, não foi difícil para Jackson criar, graças à fobia que ele e Tolkien compartilham.

“Tenho pavor de aranhas”, admite o cineasta. “Por isso sou capaz de tornar essas coisas muito pessoais ao pensar: ‘O que tem numa aranha que tanto me apavora?’ deio a ideia de um ninho de aranhas. Quando você está num jardim e vê um arbusto com aquele pequeno ninho branco que parece uma casinha, você pensa em todos aqueles milhares de pequeninas aranhas feias que vão chocar, crescer e se arrastar para a sua cama à noite. Esse tipo de coisa me alucina. Assim, eu quis que Bilbo literalmente fosse parar no coração de um ninho de aranhas, e é de fato o que aconteceu com ele.”

Fazer blockbusters de US$ 200 milhões tem muitas vantagens, mas muitos contratempos. A pressão para dar resultados é muito forte. O tempo não para. Todos dão palpite. “Quando digo que estou fazendo um filme para mim e não para os outros, estou tentando ser aquele cineasta honesto que eu era.”

O que coloca uma questão óbvia: depois de sair a versão estendida de O Hobbit em Blue-Ray nas lojas, depois de Jackson ter explorado e exaurido cada centímetro quadrado da Terra Média, terá chegado a hora de ele fazer um filme sobre duas pessoas conversando em torno de uma cerveja num pub de Wellington? “Poderíamos ter duas pessoas, eu e Fran, bebendo uma cerveja num pub mesmo sem nenhum filme sendo feito”, diz Jackson, rindo. “Isso seria ótimo. Mas seria um luxo neste momento.”

“Tive ambições e coisas que eu queria fazer, mas não tenho um plano quinquenal estabelecido. Não sou do tipo que fica marcando numa lista as coisas que fiz a cada ano e se perguntando sobre seus planos. Pego as coisas do jeito que elas surgem, e cada filme que faço nasceu de uma certa espontaneidade, sorte, coincidências e destinos se juntando em várias épocas. Tem sido imprevisível”, conclui Jackson. “O que é uma alegria, porque não gosto de ter planos. É isto que torna a vida interessante. E aí veremos o que acontece.” TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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