Pesquisa da Ancine sobre filmes lançados no Brasil em 2016 mostra ausência de diretoras negras

Pesquisa da Ancine sobre filmes lançados no Brasil em 2016 mostra ausência de diretoras negras

De cada quatro longas lançados no País naquele ano, três tiveram como diretores homens brancos; esses e outros dados foram levantados na pesquisa “Diversidade de gênero e raça nos lançamentos brasileiros de 2016”

Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

25 Janeiro 2018 | 06h01

RIO - O Brasil tem mais de 50 milhões de mulheres negras, mas no ano de 2016 nenhuma delas dirigiu ou roteirizou um filme. De cada quatro longas lançados no País naquele ano, três tiveram como diretores homens brancos. Os dados, que espelham a desigualdade de gênero e raça no País – segundo o IBGE, 54% da população é de negros e pardos e 51,6% é feminina, sendo que em dez pessoas, três são mulheres negras –, foram levantados na pesquisa “Diversidade de gênero e raça nos lançamentos brasileiros de 2016”, que a Agência Nacional de Cinema (Ancine) divulga nesta quinta, 25.

A Superintendência de Análise de Mercado da agência avaliou 1.326 pessoas que trabalharam nos 142 longas-metragens lançados comercialmente em 2016, 97 de ficção e 44 documentários. Foram analisadas fotografias delas nos filmes e em redes sociais para classificá-las como brancas ou pardas e pretas (a necessidade de autodeclaração, usada pelo IBGE, inviabilizaria a pesquisa). 

Homens brancos dirigiram 75,4% deles e mulheres brancas, 19,7%. A fatia de homens negros foi de 2,1%. Com relação aos roteiros, homens brancos assinaram 59,9% deles, mulheres brancas, 16,2%, mulheres e homens brancos juntos, 16,9%, homens brancos e negros juntos, 3,5%. 

Os atores refletem a mesma hegemonia: dos 827 que participaram dos elencos principais, 491 eram homens e 335, mulheres. Os brancos eram 674 – 81,4% –; os pardos e pretos, 111, os considerados amarelos, quatro. Em 38 casos a informação ficou incompleta, por falta de fotos.

“Já esperávamos os números, porque é um retrato da situação de desigualdade brasileira. O que mais nos chocou foi o fato de o elenco principal ter uma representatividade tão baixa em relação à parcela de negros no Brasil”, diz Luana Rufino, à frente da superintendência. “A população não se vê na tela.”

No caso da produção executiva dos filmes, os números apontam para uma predominância feminina: mais de um terço, 36,9%, são mulheres brancas; 26,2%, homens brancos; 26,2%, mulheres e homens brancos produzindo juntos. Inexistiram produtoras negras; mulheres brancas e negras trabalhando juntas representaram 1%, e mulheres e homens brancos e negros juntos, 3%. Direção de fotografia e de arte também são desiguais: 85,2% dos diretores de arte são homens, e 59,2% dos fotógrafos também.

“Os números são alarmantes. Anos atrás, era pior, mas o avanço é lento”, aponta Gledson Mercês, um dos coordenadores do levantamento. “É preciso que haja diversidade dos olhares. Sou negro e há coisas que eu vejo que os meus amigos não enxergam, caso do racismo.”

Para Sabrina Fidalgo, realizadora negra que já dirigiu curtas e está desenvolvendo o roteiro de seu primeiro longa, as exigências dos editais são um dos gargalos. Ela cita Adélia Sampaio, a primeira cineasta negra a realizar um longa no País, Amor Maldito, de 1984 – um caso isolado. 

“A narrativa audiovisual brasileira é toda construída sob o olhar masculino e branco, classista e eurocêntrico, o que perpetua o machismo e o racismo. Não dá mais. A maior parte da população é mulher e negra, é quem fomenta o cinema, com a arrecadação dos impostos.” 

A produtora Vania Catani defende políticas afirmativas que incluam mais negros no cinema, como cotas. “Infelizmente essa disparidade absurda existe não só no Brasil. Espero que a pesquisa seja mais um tijolo na construção de um caminho para combater isso”.

Segundo o ministro da Cultura, Sergio Sá Leitão, o governo está trabalhando para atacar este desequilíbrio, por meio da formulação de uma política pública efetiva no âmbito do Conselho Superior de Cinema: “Não adianta termos ações pontuais e demagógicas. Quero resultados concretos, que transformem essa realidade.” 

Números: 

- 142 longas-metragens lançados comercialmente em 2016 foram analisados

- 0 filme foi dirigido, roteirizado ou produzido por mulheres negras  

- 75,4% dos filmes foram dirigidos por homens brancos 

- 59,9% dos filmes foram roteirizados por homens brancos

- 8% dos elencos principais dos filmes incentivados pela  Ancine são pretos e pardos

- 114 filmes foram produzidos no Sudeste; no Nordeste, foram 16; no Sul, 7; no Centro-Oeste, 4; no Norte, 1 

 

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