Pesadelos e convenções nas estréias do cinema

Em seu primeiro filme, que estréia hoje no País, o dinamarquês Cristoffer Boe aborda as confusões da mente humana do mesmo modo que Charlie Kauffman (Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças) gosta de fazer. Já a reestréia de A Marquesa d´O (1976), de Erich Rohmer, mostra um verdadeito estudo dos costumes franceses, históricos e até mesmo contemporâneos.Lie Kaas estrela Reconstrução de Um Amor, o belo filme e Boe que estréia hoje na cidade. Em Cannes, no ano passado, o diretor recebeu o prêmio Caméra D´Or, para o melhor filme de estreante. Em agosto, foi o vencedor do prêmio da crítica em San Sebastian. Christoffer Boe também é roteirista. Você pode fazer a ponte entre o filme dele e Brilho Etereno de Uma Mente sem Lembranças, com Jim Carrey, em exibição em salas de todo o País. Reconstrução passa-se em 24 horas, criando um quebra-cabeças em torno das andanças de um fotógrafo que conhece uma mulher, vai com ela para a cama e, no dia seguinte, ingressa num verdadeiro pesadelo kafkiano - de repente, ele não consegue mais entrar em casa e não é mais reconhecido pelos amigos, pelo pai nem pela antiga namorada. A mulher com quem ele fez amor chama-se Aimee e está em Copenhague acompanhando o marido escritor, que faz anotações para um novo livro. Tudo é muito ambíguo e nebuloso, mas as duas histórias terminam por articular-se para que Lie Kass fale sobre a mente e a arte da literatura e do cinema. Antes de dirigir A Marquesa d´O (que reestréia nos cinemas hoje) em 1976, Erich Rohmer já era conhecido como arguto observador dos costumes franceses com sua série de Contos Morais. De modo que essa adaptação da novela do alemão Heinrich von Kleist parece uma ruptura, ou uma exceção de obra, uma aventura pelo mundo do passado. Mas, no fundo, é apenas uma variante do seu estudo da sociedade burguesa, histórica ou contemporânea. O relato evoca a invasão da Lombardia pelos russos no século 18, no contexto das guerras napoleônicas. A filha do governador local, a marquesa d´O (Edith Clever), viúva, se vê a ponto de ser violentada pelos soldados invasores quando é salva pelo tenente coronel russo, F. (Bruno Ganz), que logo em seguida a pede em casamento. Mas F. deve antes viajar em missão diplomática e, durante sua ausência, a marquesa descobre-se grávida. O foco de interesse imediato seria essa gravidez misteriosa e a procura por seu responsável. Mas logo vemos o que mais cativa o diretor: estudar as repercussões do fato no interior de uma família rígida e ciosa da sua imagem diante dos outros. Assim, há dois planos que se entrelaçam - o das convenções sociais e o da sexualidade que, como Kleist sabia e Rohmer bem entendeu, não pode ser completamente domesticada. Essa tensão faz o encanto do relato, e do filme, conduzido com a sobriedade habitual pelo cineasta francês.

Agencia Estado,

13 de agosto de 2004 | 15h37

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