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Personagens clássicos de 'Cidade de Deus' reaparecem em novo filme

Documentário checa os destinos dos atores do filme de Fernando Meirelles

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

07 de novembro de 2015 | 03h00

Goste-se dele ou não, todo mundo sabe que Cidade de Deus (2002) foi um divisor de águas do cinema brasileiro contemporâneo. Muito de sua força vem do elenco, até então desconhecido, escolhido nas comunidades cariocas. São eles que dão ao filme a empatia, a espontaneidade, a sensação de coisa vivida e não interpretada por atores profissionais. O que foi feito desses atores naturais? Deram-se bem na vida ou não? Um filme foi suficiente para arrancá-los da pobreza ou das tentações do crime? Essas perguntas estão na origem de Cidade de Deus – Dez Anos Depois, de Cavi Borges e Luciano Vidigal.

Os autores do documentário vão atrás dos atores do filme de ficção de Fernando Meirelles (Katia Lund, codireção) e recolhem depoimentos variados, no tom e no conteúdo. Alguns de fato tiveram suas vidas mudadas pelo filme. São os casos de Seu Jorge (o Mané Galinha), Roberta Rodrigues (Berenice) e Thiago Martins (Lampião). Em parte, Leandro Firmino da Hora (o Zé Pequeno), Douglas Silva (o Dadinho) e Alexandre Rodrigues (Buscapé). Outros retornaram ao anonimato, como é o caso de Renato de Souza (Marreco), hoje na labuta em uma oficina mecânica. Rubens Sabino (Neguinho) esteve preso por furto e, numa das cenas do documentário, é visto num supermercado, ao comprar o amendoim que irá revender nas esquinas da cidade. Outro, Jefechander Suplino (Alicate) envolveu-se com o tráfico de drogas e está desaparecido. Quem fala por ele é sua mãe, esperançosa de que ainda esteja vivo.

Filmes não fazem milagres, já se sabe. Podem ser oportunidade, porta de passagem, fresta que se abre e se fecha em seguida, beneficiando apenas a alguns. Questão de sorte, de aptidão, de virtudes impalpáveis para aqueles que conseguem dar continuidade à carreira e assim mudar de vida.

Para outros, trata-se apenas de um brilho fugaz, antes da volta à realidade cotidiana. Por isso, o documentário abre com um dos personagens falando desse contraste imenso entre o glamour do cinema e o dia a dia dos seus bairros de infância. Cidade de Deus foi a Cannes e alguns dos garotos vestiram black-tie para entrar no Palais representando o filme. Um dos “filhotes” do longa, o televisivo Cidade dos Homens, foi indicado para o Emmy, o Oscar da TV, e, mais uma vez, alguns dos meninos brilharam, desta vez em Nova York.

Esse contraste entre o brilho fugaz do cinema e o tom cinza do real produz a dinâmica do filme. Ainda mais porque os diretores deixam que os personagens falem e interpretem o que viveram, por si sós. Claro que entre eles existem queixas isoladas dos que acreditam que o filme rendeu fortunas e lhes pagou pouco. Mas seria miopia enxergar aí o discurso do ressentimento. Límpido mesmo é o retrato que fornece da tragédia social brasileira. Essa mesma que leva pessoas a acreditarem que um simples filme seria resgate automático do abismo social de que são vítimas.

 

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