Divulgação
Divulgação

Perón e Evita: O amor precede a história

Longa explora o lado humano do histórico casal da política argentina

Ariel Palacios , O Estado de S. Paulo

10 de novembro de 2013 | 20h20

Juan Domingo Perón, três vezes presidente da Argentina e fundador do movimento político que pretendeu conciliar os trabalhadores e o capital, e Eva Duarte de Perón – mais conhecida como “Evita” – formam a dupla política mais famosa da história da Argentina e de toda a América Latina. Nunca antes – nem depois – na região apareceu um dueto que conseguiu, com tal sinergia, mobilizar milhões de pessoas, além de continuar como ícones políticos décadas após ambas as mortes. Polêmico, chamado de “fascista” por uns e de “esquerdista” por outros, o casal Perón sempre rendeu filmes de temática política.

Em cartaz nos cinemas, um longa agora retrata a poderosa dupla em seu lado amoroso. O filme, Juan e Evita – Uma História de Amor, da diretora Paula de Luque, começa com os primeiros encontros entre Perón e Evita, muito antes de a política tornar-se um fator crucial em suas vidas. “Esta é uma história de amor”, explicou De Luque ao Estado. “É um grande romance de duas pessoas que depois transcende as quatro paredes de sua casa e derrama-se sobre o povo, tornando-se parte do universo público”, sustenta.

O filme protagonizado por Julieta Díaz (Evita) e Osmar Núñez (Perón) narra o romance entre os dois, o crescimento acelerado do então coronel do Exército e secretário do Trabalho como figura pública, até o 17 de outubro, a data peronista por excelência, na qual milhares de pessoas exigem a liberação. Segundo De Luque, trata-se da história de Perón e Evita antes do surgimento do Peronismo e do AntiPeronismo.

“Em meu filme, a política está nas ‘beiradas’. Quando Perón e Evita se conheceram, não existia um futuro político ainda. E Eva não era essa loira magra (o filme mostra quando Evita começa a tingir seus cabelos da forma platinada com a qual ficaria famosa). Era uma garota tímida, de 26 anos, apaixonada por Perón. Era uma atriz no comecinho de sua carreira”, afirma a diretora.

“Outros filmes mostram cada um dos dois integrantes do casal como clichês. Meu filme não faz isso. Eu mostro Perón como alguém em construção, que ainda não é ‘O Perón’. Idem com Eva. É uma construção dos dois personagens ao longo do filme. O espectador sabe como a história de ambos terminou, anos depois. Os personagens não o sabem.”

A diretora também exibe um Perón e uma Evita humanos, antes de serem mitos. “Perón era mulherengo, e mostro isso. E Evita era muito ciumenta com ele. Não eram ‘deuses’. Eram seres humanos. No entanto, foram seres humanos que transcenderam. O interessante é mostrar as misérias e as nobrezas,e ainda conseguir empatia com o espectador.”

O longa – com sutileza e discrição – também mostra cenas de sexo entre Perón e Evita, novidade na cinematografia mundial, que sempre exibia o poderoso dueto como duas pessoas assexuadas que apenas pensavam em política. “Com muitas nuances, coloquei essas cenas, já que eles eram humanos”, indica a diretora.

“O filme está ancorado em dados reais. Mas a parte da relação íntima, sentimental do casal, é uma invenção minha, baseada no que sabemos sobre os dois.”

No entanto, De Luque descarta uma segunda parte de Juan e Evita. “O que eu queria contar era o romance, a parte anterior, antes de eles se transformarem nessas figuras políticas públicas”, diz.

“Evidentemente, a vida de Evita acaba de começar.” Com essas palavras, a escritora mexicana Alma Guillermoprieto definiu no final dos anos 90 o revival de “Evita”, também designada de “porta-estandarte dos humildes”, “Mãe dos Pobres” e “Protetora dos trabalhadores” Morta em 1952 por um devastador câncer, transformou-se em um mito político que foi usado pela direita e a esquerda peronista.

Nos 90, a realização do filme Evita, de Alan Parker, protagonizado pela cantora Madonna – baseado no musical da Broadway – gerou um boom “evitista” em todo o planeta. Mas a chegada da presidente Cristina Kirchner ao poder, em 2007, propiciou um novo boom, desta vez na Argentina. Evita consolidou-se como ícone pop ao decorar com sua efígie canecas de café, chaveiros, camisetas, pôsteres, adesivos e bonecas de pano.

“Mãe espiritual da pátria” – tal como foi chamada oficialmente pelo governo de Perón nos anos após sua morte – transformou-se em desenho animado com o lançamento Eva da Argentina em 2011. Evita também protagoniza um videogame ao lado do marido, no qual combatem e aniquilam “oligarcas”.

De quebra, Evita – que era abstêmia – virou marca de cerveja. Uma cerveja loira, seguindo o estilo da platinada tingida que foi a primeira-dama mais famosa da Argentina. Os argentinos podem adquirir esses produtos usando notas de 100 pesos com a efígie de Eva Perón, lançadas no ano passado pela presidente Cristina, declarada fã de Evita.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.