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'Permanência' e 'A Menina dos Campos de Arroz' entre as boas estreias da semana

O primeiro, brasileiro, foi dirigido por Leonardo Lacca; o outro, uma copordução da França e China, é de uma delicadeza ímpar

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

28 de maio de 2015 | 18h02

O destaque das estreias desta quinta-feira é a chegada de nada menos que cinco produções nacionais aos cinemas: Permanência, Cauby, O Amuleto, Os Últimos Cangaceiros e Território do Brincar.

São filmes muito diferentes, em temática, estilo e qualidade.

Permanência, de Leonardo Lacca, é uma ficção brasileira digna de todo interesse. Dirigida por Leonardo Lacca, foi o filme vencedor do há pouco encerrado Cine PE, o festival do Recife. Traz Irandhir Santos como o fotógrafo que vem a São Paulo para fazer sua primeira exposição individual. Hospeda-se na casa de uma ex, agora casada de novo.

Envolve-se com uma das sócias da galeria onde vai expor suas fotos e, de quebra, tenta refazer a relação com seu pai.

A cidade comparece como personagem desse drama da solidão, muito bem filmado e interpretado. Irandhir, como sempre, está ótimo. As atrizes Rita Carelli e Laila Pas surpreendem. Permanência é exemplo de um cinema brasileiro contemporâneo focado nos sentimentos, mas sem voltar as costas para a dimensão do social. Aposta mais nas sugestões e nos espaços vazios da narrativa do que no preenchimento compulsório e no explícito. Acredita no espectador e vai na contramão da linguagem televisiva. Ótimo

O Amuleto, de Jeferson De, parece uma tentativa bastante mal sucedida de incursão pelo cinema de gênero. Um grupo de jovens desaparece numa floresta e detetives tentam encontrá-los a partir de imagens de celular gravadas por uma das vítimas. Mix de antigas lendas de bruxarias e proposta de ser uma A Bruxa de Blair à brasileira, O Amuleto tropeça no enredo fraco e na filmagem, bastante óbvia e tosca. Difícil acreditar que leva a assinatura do talentoso diretor de Bróder. Regular

Cauby - Começaria Tudo Outra Vez é mais uma tentativa de Nelson Hoineff de retratar personagens populares do Brasil. Depois de Chacrinha e Paulo Francis, o diretor refaz a trajetória do grande intérprete de Conceição e outros sucessos. Cauby é uma figura e tanto. Parece meio doente e já sem a agilidade de outrora. Move-se e fala com dificuldade. Mesmo assim, é capaz de produzir depoimentos corajosos, como aquele em que fala da homossexualidade, sem qualquer preocupação de sair do armário porque nele nunca esteve. Imagens de arquivo são muito boas, mas o todo é insuficiente para fazer um documentário de fato inesquecível sobre uma figura que ocupou durante tanto tempo o imaginário nacional. Regular

Em Os Últimos Cangaceiros, o diretor Wolney Oliveira entrevista as figuras carismáticas de Moreno e Durvinha, que pertenceram ao grupo de Lampião, escaparam ao massacre de Angicos em 1938 e, sob falsa identidade, percorreram o sertão até assentarem pouso em Minas Gerais. Lá, viveram incógnitos e sob nomes falsos até 2006, quando então resolveram falar do passado. Mesclando depoimentos dos velhos cangaceiros e de seus conhecidos e filhos a filmes e material iconográfico, o filme relembra o cangaço como matriz cultural e fenômeno social do início do século 20 no Brasil. Tem bom ritmo, boa música (DJ Dolores) e é intelectualmente honesto. Embora simpático aos velhinhos do cangaço, não esconde o quanto essa modalidade de banditismo social brasileiro teve de violenta. Bom

Entre os estrangeiros, o destaque é para o chinês A Menina dos Campos de Arroz e o francês O Homem que Elas Amavam Demais.

A Menina dos Campos de Arroz, de Xiaoling Zhu, é narrado em primeira pessoa pela garota A Qiu. Ela trabalha no campo com os avós enquanto seus pais vivem na cidade, tentando ganhar dinheiro nas profissões urbanas. O sonho de A Qiu é estudar e se tornar escritora. Mas os pais não têm dinheiro para mandá-la a uma escola secundária. Que isso aconteça na República Popular da China é de pasmar. Mas, enfim, é o enredo da história e eles devem saber do que falam. O filme é de uma delicadeza ímpar. Mostra, à maneira de um documentário, o cotidiano duro no campo, com as pessoas dependendo dos favores da natureza para sobreviver. A narração em primeira pessoa dá um tom intimista e sensível, acompanhado de imagens nunca óbvias. Ótimo

Já o francês O Homem que Elas Amavam Demais traz a mão segura do veterano André Téchiné, recriando de forma ficcional uma história policial verídica. O caso é o da jovem (Adèle Haenel) que se apaixona pelo advogado de sua mãe (Catherine Deneuve), uma milionária dona de cassino na Côte d'Azur. Ao fim de um namoro tumultuado, a jovem some misteriosamente. O filme começa por vasculhar os bastidores do ambiente de luxo das mansões de dos cassinos da rica costa francesa. Aprofunda-se na aura de mistério de um caso de amor perigoso, em que os amantes desafiam-se e batem-se como duelistas. Não se preocupa em deixar tudo claro e nem tem medo de que o mistério impeça soluções definitivas. Mesmo porque o desaparecimento da jovem herdeira não foi solucionado até agora. Filme para pessoas adultas, que não se frustram com ambiguidades e incertezas. A vida é assim, sorry. Ótimo

Promessas de Guerra é a boa estreia na direção de Russell Crowe. Ele mesmo interpreta o fazendeiro australiano que vai à Turquia em busca dos filhos desaparecidos na Batalha de Galipoli, uma das mais sangrentas da 1ª Guerra Mundial. O drama é filmado com intensidade e precisão. Crowne, com seu ar triste, faz um personagem convincente, embora dê à história ar romanesco, com o envolvimento com uma bela viúva (Olga Kurylenko), etc. As concessões comerciais não chegam a comprometer a integridade do filme.

Terremoto - Falha de San Andreas, de Brad Peyton, representa o que o cinema pipoca tem de pior. O fortão Dwayne Johnson é um bombeiro que está se separando da mulher, a bela Carla Gugino. Sente saudades da filha (Alexandra Daddario), mas tem mais com que se ocupar porque uma série de tremores de terra ameaça destruir a Califórnia. O filme representa o suprassumo do cinema de efeitos especiais, com suas rachaduras de terra, avalanches, pontes e prédios tombando, ondas monumentais levando navios, etc. Quem disser que é malfeito estará de má-vontade. Nesse quesito eles são insuperáveis. Pena que a, digamos assim, dramaturgia seja tão rala e previsível. Na verdade, o elemento humano é apenas coadjuvante para os efeitos especiais, estes sim os verdadeiros protagonistas da história. E, sim, há o inevitável patriotismo, com a bandeira americana tremulando sobre escombros, como a dizer que a nação a tudo sobreviverá. Ruim.

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