Pergunte ao Pó tem sinais de um filme deslumbrante

Pergunte ao Pó (1939), romance autobiográfico do norte-americano John Fante (1911-1983) foi parar nas mãos do roteirista Robert Towne (Chinatown), resultando numa adaptação bem acima da média, que estréia nesta sexta-feira em São Paulo. Na esteira do filme, projeto pessoal que Towne levou 30 anos para concretizar, a editora José Olympio promove o relançamento da obra do escritor norte-americano. Inicialmente, três títulos estão disponíveis nas livrarias: Pergunte ao Pó, O Caminho de Los Angeles e Espere a Primavera, Bandini. Em 2007, a mesma editora lança uma nova tradução de sua derradeira obra, a coletânea de contos O Vinho da Juventude.Existem fragmentos do que poderia ser um filme deslumbrante em Pergunte ao Pó. Poucas cenas são tão justas e emocionantes quanto a do diálogo que Colin Farrell e Salma Hayeck travam de pé, diante do espelho, na lanchonete.Numa cena anterior, ele debochou da típica sandália mexicana queCamila (é o nome da personagem) usava; ela trocou por vistosossapatos de saltos altos que lhe causam incômodo. O diálogo ésobre as pernas de Camila. As pernas são dignas de usar aquelessapatos, ela pergunta. Ele retruca - serão os sapatos dignosdaquele monumento de coxas? É um raro momento de lisonja, porque na maior parte do tempo, Camila e Arturo Bandini (o personagemde Farrell, alter ego do escritor John Fante) vivem sehostilizando. Dizem coisas ofensivas um ao outro - ou ele diz para ela numa falta de tato que não escapa à outra mulher, que carregamarcas no corpo, mas com a qual ele é muito mais compassivo eaté terno na hora do amor. Em Camila, Bandini identifica umaexasperação de si mesmo. Carregando esse sobrenome italiano, ele não raro, é confundido com mexicano numa sociedade quediscrimina os oriundos do México. Em Camila, analfabeta,garçonete, mas com um carro, ele se projeta como num espelho e oque vê não lhe agrada: um italiano pobre tentando fazer carreiracomo escritor, numa cidade hostil - a Los Angeles dos anos1930/40.Tendência nasce na literatura e é incorporada pelo cinema Nesta cidade, e naquela época, foi gestada uma tendênciada literatura que foi incorporado pelo cinema, o noir. JohnFante escreveu Pergunte ao Pó para refletir sobre o período esobre ele mesmo. Los Angeles é habitada por legiões desonhadores como Bandini, que esperam uma chance na vida, numaépoca de penúria, na qual um níquel é mais do que possuem nobolso. A maioria termina derrotada, mesmo quando tenta manter apose - como a dona da pensão com suas patéticas rendinhas; ou obêbado interpretado por Donald Sutherland. O ator não está emPergunte ao Pó por acaso, mas para fazer a ponte entre estefilme e outra demolidora análise dos bastidores de Hollywoodcomo expressão do fracasso do sonho americano. O personagem queSutherland interpreta remete ao de O Dia do Gafanhoto, queJohn Schlesinger adaptou de outro monumento literário - o livrode Nathanael West.Towne recebeu o Oscar por Chinatown, clássico noir que o diretor Roman Polanski jurahaver reescrito integralmente, o que não impediu o escritor deganhar o crédito (e o prêmio da Academia de Hollywood). Towneestreou na direção com As Parceiras, que não é ruim, sobre umcaso de lesbianismo no meio esportivo. Fez depois OperaçãoTequila, que não fez muito sucesso, apesar do elenco de luxo,formado por Mel Gibson, Michelle Pfeiffer e Kurt Russell. Towne teve o aval do astroTom Cruise, que produziu Pergunte ao Pó, talvez como umagradecimento à participação do roteirista na formatação deMissão Impossível 1 e 2. Pergunte ao Pó (Ask The Dust, EUA/2006, 117 min. ) - Romance. Dir. Robert Towne. 16 anos. Regular

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