Sarah Silbiger/ Reuters
Sarah Silbiger/ Reuters

Perfil: Quem é Jane Fonda, atriz que adotou as sextas-feiras como 'dia para ser presa'

Dona de uma carreira impecável, ela conquistou dois prêmios Oscars enquanto protestava contra a Guerra do Vietnã; veja mais na biografia feita pelo 'Estado'

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

08 de novembro de 2019 | 09h00

Como hoje é sexta-feira, pode-se imaginar o que, desde cedo, está se passando na capital dos Estados Unidos. Uma senhora prepara-se para ser presa em algum momento do dia, alguém da guarnição prepara-se para prendê-la. A dama é uma famosa estrela de cinema e TV, Jane Fonda, que resolveu seguir o exemplo de uma garota sueca - Greta Thunberg - e instituiu as sextas-feiras como dia para tentar salvar o planeta.

Vestida com um casaco vermelho cintilante, ela tem protestado em frente ao Capitólio. Tem ido com amigos - Catherine Keener, Rosanna Arquette, Ted Danson -, ocupando as escadarias com chamamentos sobre a urgência da crise ambiental, que o presidente Donald Trump e seus epígonos ao redor do mundo insistem em minimizar.

Confiscam-lhe o celular, ela vai presa, batem a identidade. Terminam por libertá-la. Na semana que vem tem mais. Já foram quatro sextas-feiras, essa será a quinta e Jane, de 81 anos - nasceu em 1937 -, pretende continuar sendo presa até meados de janeiro, quando recomeça a produção da que está sendo anunciada como última temporada de Grace & Frankie, sua série (com Lily Tomlin) da Netflix. Para ela, a militância ecológica talvez seja uma novidade, mas não propriamente a militância. Nos anos 1960/70, Jane participou de manifestações nos campi das universidades norte-americanas. Com o então companheiro, Tom Hayden, foi ativista contra a Guerra do Vietnã. Chegou a ir a Hanói, via Paris, onde viveu com outro marido - o cineasta Roger Vadim -, para se solidarizar com os norte-vietnamitas, que sofriam ataques de napalm. Era chamada, pelo establishment militar, de Hanói Jane.

Filha de Henry Fonda, um astro que pertencia à aristocracia de Hollywood, a mãe era uma socialite de Nova York. Não admira que tenha sido batizada como Lady Jayne. A mãe suicidou-se, e ela e o irmão, Peter Fonda - que morreu este ano -, foram enviados para internatos. O pai seguiu a rotina de casamentos e divórcios - só muitos anos mais tarde, quando Henry já estava no fim, Jane acertou os ponteiros com ele. Decidida a ser atriz, iniciou a carreira em casa - Hollywood -, mas foi para a França e se ligou a Vadim. Ele, que já iniciara o mito de Brigitte Bardot em E Deus Criou a Mulher, fez dela um mito sexual em Barbarella. Alternando Europa e EUA, Jane ganhou o primeiro Oscar - em 1972, por Klute, o Passado Condena, de Alan J. Pakula - e filmou com Jean-Luc Godard (e Yves Montand), Tout Va Bien, que foi seguido por Letter to Jane. Foi às ruas com os estudantes, apanhou da polícia protestando contra a guerra, foi chamada de antipatriótica por veteranos.

Tudo isso faz parte de sua biografia. Ganhou outro Oscar de melhor atriz - em 1979, por Amargo Regresso, de Hal Ashby, justamente sobre a dificuldade de adaptação de veteranos da guerra. Casou-se com Ted Turner, virou garota propaganda dos benefícios das academias na busca da eterna juventude. Essa fase passou, mas agora uma outra Jane - outra? A mesma! - está de volta às ruas, e aos protestos. A causa ambiental, o aquecimento global. A série vai bem, obrigado. Grace & Frankie aborda com humor temas importantes de gênero. Como hoje é sexta, vale repetir, é dia de Jane Fonda ser presa. O tempo passa e ela não desiste do engajamento. Jane, em Hollywood, foi sempre assim. Não uma diva, uma esfinge inatingível. Uma mulher do seu tempo.

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