"Perdemos o Godard brasileiro", dizem cineastas

Ugo Giorgetti, cineasta: "Eu nãotinha contato pessoal com Sganzerla, mas sinto muito sua morte,que considero simbólica. Como cineasta, ele representa um tipode cinema que hoje é apenas um fantasma de outros tempos.Atualmente o cinema brasileiro está tomado por uma pobrezaabsurda, tudo cada vez mais igual e, pior, igual na mediocridade na maneira abjeta de cortejar o público, um cinemadescompromissado com qualquer idéia de investigação ou reflexão.Sganzerla era uma exceção nesse panorama, um cacto nesse deserto algo de diferente e importante que está indo embora." Arrigo Barnabé, músico: "Trabalhei com ele entre 1984 e1985. Convivemos bastante naquela época. Mas gostaria de tertrabalhado mais com ele. O Sganzerla era uma pessoa muitobondosa. Quando ele me mostrou O Bandido da Luz Vermelha,fiquei encantado. Foi uma das melhores coisas que já vi. Lembro-me queele era apaixonado pela história de Orson Welles no Brasil. Eugostava muito dele como pessoa. Uma pena." Paulo César Saraceni, cineasta: "É muito triste. Ele eraum grande cineasta, um grande amigo. Sem dúvida, um dos maiorescineastas brasileiros, um grande crítico, um profundo conhecedordo cinema. Ele adorava Orson Welles e adotou seu estilo em seusfilmes, mas também influenciou muita gente. Sempre acompanheisua obra e acho uma grande perda para cinema brasileiro, aindamais neste momento, em que o cinema toma um rumo que eu nãogosto, seguindo por uma lado bem comercial. Sganzerla era umamante da arte cinematográfica, uma esperança de mudança nestestempos." Cacá Diegues, cineasta: "Rogério Sganzerla foi um doscineastas mais importantes do cinema brasileiro. Tem certosfilmes que são marcos de luz na nossa história. Este é o caso deseu filme O Bandido da Luz Vermelha. Pode-se falar do cinemanacional antes e depois desse filme. O que caracteriza ostrabalhos de Sganzerla é fato de o cinema parecer ser inventadoa cada novo filme dele." Jorge Bodanzky, cineasta: "Rogério Sganzerla antecedeu aminha geração, sua presença foi marcante e, para os mais jovens,ele foi um verdadeiro ícone. Tenho muito respeito por suahistória, por seu trabalho." João Batista de Andrade, cineasta: "Conheci o Rogério nocomeço de carreira. Lembro-me dele montando "O Bandido da LuzVermelha" em São Paulo. Ele sempre foi muito anárquico, racional mas extremamente talentoso. Muitas vezes os técnicos tinhamdificuldade em trabalhar com ele, por ser tão inquieto e estarsempre inventando novas coisas. Lamento bastante. Mas ele nosdeixa seu talento impresso nos filmes." Carlos Reichenbach, cineasta: "Tenho a impressão queesses últimos meses marcam um período negro para o cinemabrasileiro, mais especificamente para o cinema de autor.Perdemos três personalidades: Walter Hugo Khouri, Jairo Ferreirae agora o Sganzerla. Pessoas importantes dentro do cinema.Sganzerla tem um importante papel na história, nodesenvolvimento da linguagem do cinema nacional. Perdemos oGodard brasileiro. Todo o cinema experimental ou cinema deinvenção é tributário a ele, o realizador de dois marcos OBandido da Luz Vermelha e A Mulher de Todos." Ismail Xavier, crítico: "Um dos maiores talentoscinematográficos brasileiros. Eu o conheci em 1966, quando eraum brilhante crítico do Jornal da Tarde. Um jovem crítico, queinfluenciou toda uma geração. Como cineasta reuniu em O Bandidoda Luz Vermelha todas as inquietações culturais da época. Sabiadialogar com o melhor do cinema, como Orson Welles e Godard.Tinha um olhar aguçado para a cidade, uma intuição rara nocinema e um senso agudo para a montagem. Ele filmava como quemrespira." Ivana Bentes, autora de "Cartas ao Mundo: GlauberRocha: "Sganzerla vai continuar influenciando novas gerações decineastas porque seus filmes têm um frescor juvenil raro,especialmente O Bandido da Luz Vermelha. Anárquico, ele foitambém um grande montador, conseguindo trabalhar com poucosrecursos e driblar a produção, eterno problema de nosso cinema.Sua fixação em Welles, portanto, não foi casual. Sganzerlaparecia estar sempre fazendo o mesmo filme, mas mantendo arebeldia como marca." Norma Bengell, atriz e cineasta - "Tive o prazer defazer um filme com ele, Abismu - O Abismo (1977). Achava queSganzerla era um dos melhores cineastas do País, um homem de umacultura cinematográfica rara. Foi mais uma perda para o cinemabrasileiro. Que Deus o receba de braços abertos."

Agencia Estado,

09 de janeiro de 2004 | 15h54

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