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Pequeno em termos de público, ‘Jauja’ é um gigante pela ousadia e criatividade

Diretor Lisandro Alonso explica que o filme nasceu da paisagem e que a palavra do título designa o paraíso

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

25 de junho de 2015 | 05h00

Comparados ao êxito planetário de Relatos Selvagens – os milhões de espectadores que a comédia de Damián Szifron fez na Argentina e multiplicou pelo mundo –, os 13 mil pagantes que viram Jauja parecem bem modestos, quase irrisórios. Não é o que pensa o diretor Lisandro Alonso. “É mais do que todos os meus filmes precedentes fizeram juntos”, revela. Refere-se a La Libertad, Los Muertos, Fantasma, Liverpool. Todos esses filmes podem ser o segredo mais bem guardado do cinema argentino – mas ele já vazou. O nome de Lisandro Alonso é uma potência em festivais internacionais. Jauja teve – está tendo – excelentes críticas na Europa e nos EUA.

Embora não deva ser negligenciado, o sucesso de público não pode ser o único nem mesmo um critério relevante para a apreciação estética de um filme. Existem filmes que arrebentam na bilheteria e são grandes. Existem outros que são medíocres. “Francamente, tenho de dizer que Jauja superou minha expectativa. Foi muito bom trabalhar com Viggo (Mortensen) e ele, como ator e produtor associado, não apenas se engajou e militou no projeto como tem sido um entusiasta defensor do filme como uma das melhores coisas que fez. Viggo tem viajado muito para divulgar Jauja. Eu mesmo fui a muitos festivais desde Cannes, no ano passado. E vou confessar: Jauja me deu tanto trabalho, mas também tanta satisfação, que estou paralisado. Não sei o que fazer a seguir. Não quero fazer nada antes de avaliar bem essa experiência.”

Justamente, avaliar. Jauja é um filme que foge não apenas dos padrões do cinema comercial, mas também no narrativo. O filme inspira-se em fatos que ocorreram na Argentina – a campanha do deserto, as guerras contra os índios no século 19. Acompanha um militar dinamarquês (Viggo) que participa da campanha. Ele tem uma filha. A garota desaparece. O pai move céus e terra. E, aí, entra numa gruta, uma caverna. O filme sofre uma ruptura. Ganha outra paisagem, outro tempo. Alonso tem dificuldade para explicar racionalmente o que fez. “Nem é minha função”, provoca.

O repórter cita outro filme com a mesma ruptura – Mal dos Trópicos, de Apichatpong Weerasethakul, que também assistiu em Cannes. A entrevista está sendo feita por Skype. Alonso pede licença e sai da tela por alguns instantes. Volta com um catálogo na mão. “Consegue ler?” Maladie Tropical/Mal dos Trópicos, de Apichatpong Weerasethaul. “Esse filme mudou minha vida!”, exclama. 

Como todo filme de Lisandro Alonso, Jauja nasceu do encontro do diretor com uma paisagem. “Viajei com meu roteirista (o poeta Fabian Casas) para a Patagônia. Deixamo-nos possuir por aquela paisagem bárbara antes de escrever uma só linha.” Depois de muito trabalho – ou depuração –, o ‘guión’ ficou reduzido a 20 enxutas páginas. “Só?”, o repórter não se furta a perguntar – Alonso estava em seu escritório, em Buenos Aires, na terça, 23, à tarde. “E para que mais? Se, com 20 páginas fiz um filme de duas horas, quanto tempo teria com mais páginas?”

Na paisagem da Patagônia, um personagem começou a se desenhar – a avançar. Um homem a cavalo. Um estrangeiro. “A campanha do deserto foi um episódio muito sangrento da história argentina. Para avançar sobre as terras dos índios, o Exército provocou verdadeiro genocídio. Muitos estrangeiros participaram dessa guerra. O fato é real, mas o personagem de Viggo é fictício. É a síntese de vários desses estrangeiros. No nosso imaginário, ele não andava sozinho. Tinha a filha. Quando ela desaparece, Fabian e eu empacamos. O filme não andava. Nosso roteiro travou. E aí veio a ideia louca, bizarra. A mulher num outro tempo, outro cenário. É ela mesma, é uma reencarnação?”

Lisandro Alonso admite que não consegue racionalizar a escolha narrativa – a ruptura de tempo e espaço – que dá o tom de Jauja. “É uma coisas inconsciente, o processo criativo nem sempre é racional. Existem coisas que a gente faz sem necessidade de se explicar.” O inconsciente, a reencarnação. Todas essas palavras também costumam ser usadas pelo tailandês Apichatpong Weerasethakul quando fala de seus filmes. Mal dos Trópicos, Tio Bonmee Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas. O fato de a entrevista ser por Skype, com imagem, o aproxima do repórter. Dá para ver a intensidade dos gestos. A fala fica mais eloquente.

“Confesso que tive um choque quando vi Mal dos Trópicos. Meu cinema sempre ensaiou novas formas não lineares de narrar, mas ali descobri uma outra coisa. Hipnótica e intrigante. O filme começa com o caçador na floresta, ele some e surge o tigre. Nos outros filmes, Apichatpong desenvolveu o tema da reencarnação, mas ali ainda não sabíamos dessa característica sua. Era pegar ou largar.” Alonso explica que não teve a intenção declarada de assimilar a ruptura do asiático, mas, assim como o estrangeiro surgiu no deserto, surgiu essa outra mulher num castelo distante – na Europa? “É muito interessante ver como o público reage. As interpretações são variadas, às vezes inusitadas. Não cabe a mim, como diretor, privar do seu direito de preencher as lacunas da narração.”

É o que o repórter destaca. Jauja não é um filme pronto, deglutido para o público. O relato exige a participação ativa do espectador. “Exato. É o tipo de cinema que me interessa. Existem filmes narrativos que são bons e eu gosto de ver, mas o que gosto de fazer é esse.” E como Viggo Mortensen entrou no projeto? “Viggo morou na Argentina, fala bem o espanhol. Já havia feito um filme aqui. Meu roteirista conhecia seu agente e o próprio Viggo. Enviamos o roteiro. Não imaginávamos que teríamos uma resposta tão entusiasmada da parte dele.” Mesmo assim, o filme demorou cerca de dois anos para se viabilizar. “Viggo ajudou muito, mas um filme tão autoral com filmagens em dois continentes não é realmente fácil de concretizar.”

Filmar na Patagônia também foi árduo – para toda a equipe. “Filmamos numa reserva, em áreas vetadas para a circulação de veículos. Todo o material tinha de ser carregado em mãos pela equipe. Felizmente, todo mundo transformou o filme numa batalha pessoal.” No início era o ‘Proyecto Sin Título de Lisandro Alonso”. O título – Jauja, que se refere ao paraíso indígena – surgiu na undécima hora. “Gosto muito desse título”, diz o diretor. E se o castelo for o paraíso? A mulher, um anjo? De volta ao roteiro, filmar com 20 páginas significa que Alonso tinha o filme na cabeça? “Se o filme estivesse pronto na cabeça, qual o interesse de fazê-lo? Para mim, o roteiro fornece 20% de um filme. Os restantes 80% nascem no set, na troca com atores e técnicos.”

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