REUTERS/Jean-Paul Pelissier
REUTERS/Jean-Paul Pelissier

Penélope Cruz e a facilidade de filmar com Pedro Almodóvar

Atriz e diretor cultivaram uma cumplicidade que facilita o trabalho na hora de filmar

Kyle Buchanan, The New York Times

14 de janeiro de 2022 | 20h00

Você pode imaginar como Penélope Cruz reagiu a seu primeiro telefonema com Pedro Almodóvar. Quando ainda era jovem, em Madri, ela assistia sem parar a fitas Betamax de seus filmes, esperando que o autor espanhol pudesse encontrar algum lugar para ela no seu mundo brilhante e ousado. Ela sonhava tanto com isso que no dia em que ele ligou para falar de um papel, nem parecia a primeira ligação – parecia a décima ou a centésima, um telefonema de alguém que ela já conhecia muito bem.

Esse vínculo ainda foi confirmado quando Almodóvar a convidou para ir a seu apartamento para ler as cenas. Cruz ainda era uma atriz inexperiente – o ano era 1992, e seus dois primeiros filmes, Jamón Jamón e Belle Époque, tinham acabado de sair – mas lendo as falas com o já estabelecido Almodóvar na sua cozinha, sua conexão era a mais natural possível.

“É difícil explicar sem parecer estranho”, ela me disse, “mas nos conhecemos bem, conseguimos sentir o que o outro está sentindo, ler a mente um do outro”.

Cruz não está brincando quanto a esta última parte: quando se trata de Almodóvar, ela afirma possuir uma intuição quase mística. Ele não a escalou naquele primeiro encontro – o papel era para uma mulher de 35 anos, e ela tinha apenas 18 – mas, nos anos seguintes, ela continuou sonhando com Almodóvar, imaginando onde ele poderia estar em Madri. Então ela ia ao teatro ou à boate onde o havia imaginado e lá, entre silhuetas muito mais convencionais, ela avistava seu distintivo tufo de cabelo.

O que você faz quando sente uma conexão natural e, ao mesmo tempo, sobrenatural? Bom, se você é Cruz e Almodóvar, acaba cedendo e fazendo sete filmes juntos. Seu mais recente longa, Mães Paralelas, também é um dos maiores, estrelando Cruz no papel de uma mãe que tem de lidar com um segredo terrível. Sua atuação bem calibrada ganhou a Volpi Cup no Festival de Cinema de Veneza e prêmios de melhor atriz da Los Angeles Film Critics Association e da National Society of Film Critics; o filme também pode render a Cruz, hoje aos 47 anos e vencedora do Oscar por Vicky Cristina Barcelona, sua quarta indicação da Academia.

Mandei um e-mail para Almodóvar para perguntar o que ele achava das visões de bruxa de Cruz e, de início, ele ficou tentado a desmascará-las: na época em que se conheceram, todos os seus movimentos eram bem conhecidos em Madri e não era difícil encontrá-lo. Ainda assim, disse ele, o estranho poder de Cruz provou ser a chave para sua relação de trabalho.

“Penélope tem uma fé cega em mim”, escreveu Almodóvar num longo e-mail. “Ela está convencida de que sou um diretor e escritor melhor do que realmente sou. Essa fé cega me enche de confiança para pedir qualquer coisa a ela, enquanto a confiança que ela deposita em mim permite que durante as filmagens ela faça coisas que ela não ousaria tentar com outros diretores, porque ela sabe que eu a estou observando como se por mil olhos”.

“Mas sim”, ele acrescentou, “ela às vezes é meio bruxa”.

Hoje em dia, quando se trata da intuição de Cruz, as pessoas sabem que é melhor não discutir, e Mães Paralelas oferece um exemplo instrutivo. Na primeira vez em que Almodóvar mencionou o projeto para Cruz ainda corria o ano de 1999, e eles tinham acabado de filmar dois longas juntos, Carne trêmula e Tudo sobre minha mãe, nos quais ela interpretara mulheres grávidas. Mães Paralelas teria batido o recorde de três seguidas: no esboço do roteiro de Almodóvar, Cruz deveria interpretar a jovem Ana, uma das duas mães solo cujas filhas recém-nascidas são trocadas na maternidade.

Mas, mesmo assim, a intuição de Cruz entrou em ação e ela se viu atraída pela mãe mais velha, Janis, uma fotógrafa que lida com uma gravidez inesperada e um capítulo sombrio da história espanhola. O projeto levaria duas décadas para se concretizar: em 2020, Almodóvar disse a Cruz que tinha ressuscitado Mães Paralelas e que agora a tinha em mente para interpretar Janis... não é legal quando as coisas se encaixam perfeitamente?

É difícil imaginar outra pessoa além de Cruz no papel porque, de muitas maneiras, ela passou a vida inteira se preparando para ele. Assim como Janis, Cruz adora fotografia, que é um hobby da atriz desde a adolescência. (É um prazer vê-la empunhando uma câmera na primeira cena de Mães Paralelas, instruindo um homem a posar para ela, pois Cruz por muitos anos foi uma musa ingênua para esses homens). Ela é chique e cosmopolita como Janis, misturando jeans e roupas de grife de um jeito elegante, mas nunca superproduzida. E ela agora é mãe e cria dois filhos com o marido, o ator Javier Bardem.

Mas em dado momento de Mães Paralelas vem uma reviravolta na história, quando Janis descobre a verdade sobre a criança que ela presumia ser sua. Tentando manter esse segredo de Ana, Janis se divide em duas: ela deve agir como uma mãe feliz e tranquila, mesmo enquanto sua culpa aumenta e um desfecho angustiado parece quase certo. Esse senso de dualidade provou ser a coisa mais desafiadora para Cruz, disse seu diretor.

“Conseguir expressar um sentimento e o sentimento oposto ao mesmo tempo é incrivelmente difícil”, disse Almodóvar, “e Penélope consegue, mesmo que não seja algo da sua natureza”. Cruz pediu um período de ensaios extraordinariamente longo de alguns meses para tentar atingir o núcleo de uma personagem que está em constante conflito com seus próprios sentimentos.

Janis precisa se conter, mas Cruz não. Durante uma videochamada de Madri, ela se mostrou calorosa e efusiva e, mesmo confinada a uma janela do Zoom, conseguiu usar todo o quadro, gesticulando expressivamente como se estivesse jogando um jogo de adivinhação. “Como posso falar sobre esse filme sem soar meio, ah, coitada de mim, a gente sofre tanto com uma personagem assim”, brincou ela. “Mas também não quero mentir e dizer, sim, foi muito fácil”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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