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Penelope Cruz, a mulher que só diz sim a Almodóvar

Em Cannes para promover Los Abrazos Rotos, atriz renova seus votos de admiração e respeito pelo cineasta

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

21 de maio de 2009 | 09h37

 Ela espera que seu amigo, seu mentor Pedro Almodóvar, receba, enfim, a recompensa com que sonha há anos, a Palma de Ouro. Penelope Cruz está aqui mostrando seu quarto filme com o grande diretor espanhol. Los Abrazos Rotos mistura duas vertentes do cinema de Almodóvar, o melodrama e o filme noir. Penelope interpreta um papel que 'Pedro' escreveu especialmente para ela. Uma mulher de temperamento generoso, e apaixonada, que logo no começo se prostitui para pagar a cirurgia do pai e que um diretor enamorado vai tentar transformar numa estrela.

 

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Por que Penelope gostaria tanto que Pedro ganhasse sua Palma? "Porque mais do que qualquer outro diretor que eu conheça, para ele o cinema não é só uma profissão nem um meio de expressão. É algo muito mais visceral. É como se própria vida de Pedro estivesse em jogo no set. Só por isso já acho que ele mereceria o prêmio, mas ele ainda é gênio. Woody Allen é gênio. Sou privilegiada trabalhando com autores desse porte."

Penelope veste elegante modelito vermelho Chanel. A entrevista realiza-se na Cha Cha Beach, em frente do Hotel Miramar, na Croisette. No dia anterior, na coletiva de imprensa de Los Abrazos Rotos, ela se queixara de dor de cabeça e gripe, uma ?boa? gripe, sinalizou, para deixar claro que não era a mexicana. Seu estado piorou e é preciso cortar uma das mesas-redondas de que ela ia participar. Ela chega sorridente, mas os olhos traem a indisposição. Mesmo assim, ela se entrega. Pedro Almodóvar a compara a Sophia Loren. O que ela pensa disso? "Sophia é capaz de criar a dama e a prostituta, a mulher do povo e a aristocrata. Admiro-a muito por seu talento. Acabamos de trabalhar juntas no musical Nina (de Rob Marshall) e só posso dizer que ela foi muito generosa comigo." Quem mais ela admira? Audrey Hepburn. Nos ensaios para a personagem que vai interpretar no filme dentro do filme, Chicas y Maletas - um remake de Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos, Almodóvar assume -, ela repete os penteados de Audrey em Bonequinha de Luxo e Sabrina.

O cinema de Almodóvar é feito de referências e uma das mais fortes em Los Abrazos Rotos é o clássico pós-neorrealista de Roberto Rossellini, Viagem na Itália. Como é trabalhar com um diretor que também é cinéfilo? "Pedro adora homenagear seus autores preferidos. Às vezes, com tanta sutileza que poucos percebem. Ele adora conversar sobre cinema. Conheci-o quando tinha 17 anos e, desde então, virou meu mentor. Tudo o que sei sobre cinema, e a vida, devo a ele, ao seu convívio, à sua perspicácia. Podemos sair juntos ou ficar em casa conversando. O prazer é o mesmo em sua companhia."

Há muito humor no cinema de Almodóvar e drama em Woody Allen. O que é mais fácil, interpretar comédia ou drama? "As pessoas têm essa fantasia de que é mais fácil fazer comédia, mas não é verdade. Pode ser muito doloroso provocar o riso, principalmente para quem, como eu, é muito insegura. Sempre tenho a impressão de que os diretores vão me despedir. Mas comédia é difícil, sim. O que faz a diferença é com quem você trabalha. Woody e Pedro são diferentes. Um improvisa, o outro é supermeticuloso. Pedro muitas vezes me deixa em total liberdade, às vezes não me deixa colocar uma respiração fora de lugar em seus diálogos. Chega a ser ríspido. ?Faça do seu jeito, mas tem de ser assim.? E sempre é o melhor. Mas nunca é fácil. Atuar é difícil, mas por mais leve que seja a sensação que se passe na tela."

Como anda a vida dela, após o Oscar por Vicky Cristina Barcelona? "Tudo o que me acontece, e não apenas o Oscar, me surpreende. Venho de um meio pobre, de uma família que não tinha o pé na arte. Muitas vezes tenho medo de acordar desse sonho de Cinderela." Almodóvar é um autor assumidamente gay. Para ele houve algum tipo de problema para se converter em sua musa? "Posso vir de um meio sem vínculo com a arte, mas minha família nunca foi preconceituosa. Sempre tive amigos gays, em quem pude confiar e com os quais podia contar. Seria horrível etiquetar as pessoas por sua preferência sexual."

E ela faz uma observação importante sobre seu diretor preferido. "Pedro escreveu um roteiro longo e superdetalhado para Los Abrazos Rotos. Filmou-o de maneira esplêndida, mas quando me mostrou a versão definitiva faltava, acho que, sei lá, mais de uma hora de material. Ele filma com paixão, mas num certo sentido pode ser considerado um criador sem ego, porque não tem problemas em cortar, não importa o que, se achar ou se for persuadido de que será melhor para o filme. Cada trabalho com ele é uma lição. De arte e vida. Só espero ter muitas mais." Ela seria capaz de dizer não a Almodóvar? "Nunca! Es inpensable eso."

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