'Pelos Meus Olhos' discute a violência contra a mulher

Filme de Iciar Bollain estréia cinco anos depois de arrebatar sete Goya, o Oscar do cinema espanhol

Luiz Carlos Merten, de O Estado de S. Paulo,

08 de agosto de 2028 | 17h03

Iciar Bollain - o nome estranho é de origem basca e pertence à diretora de Pelos Meus Olhos, que estréia na sexta-feira, 29, cinco anos depois de arrebatar sete Goya (o Oscar do cinema espanhol), em 2003. Pelos Meus Olhos ganhou nas categorias de filme, direção, ator (Luis Tosar), atriz (Laia Marull), coadjuvante (Candela Peña, que faz a irmã da protagonista) e roteiro (da própria Iciar), mais os prêmios de fotografia e som. Além da consagração na Academia Espanhola de Cinema, Pelos Meus Olhos foi também campeão de bilheterias e se tornou referência em todo debate que, desde então, foi realizado no país, sobre violência doméstica. Veja também: Trailer de 'Pelos Meus Olhos'  De onde vem esse nome tão exótico? "Não é tão raro no País Basco. É o nome de uma Virgem que veneramos, mas se você quiser saber o significado é algo como Estrela", diz a própria Iciar, numa entrevista por telefone. Pelos Meus Olhos foi seu terceiro longa e Iciar, que escreve atualmente o que será o quinto, é a primeira a dizer que sua trajetória difere um pouco da de suas colegas. "É um espelho da sociedade, porque nós, mulheres, representamos algo em torno de 10% em relação aos homens que dirigem cinema na Espanha. Mesmo assim, não me considero discriminada. Fui até favorecida pelo fato de haver sido atriz. Muitas portas se abriram para mim." Em 1983, Iciar Bollain tinha 15 anos quando interpretou uma das duas irmãs - a mais velha - no filme de Victor Erice, El Sur. O autor de O Espírito da Colméia é considerado tanto o mais ‘secreto’ quanto o mais ‘hermético’ dos diretores espanhóis, por filmes como o que acaba de ser citado, sobre uma garotinha que assiste a Frankenstein no cinema e o mito do monstro feito de restos de cadáveres, com base na obra famosa de James Whale, desperta nela um mundo de fantasias. El Sur e, na seqüência, El Sol nel Membrillo fortaleceram essa via misteriosa e poética. "Victor e Pedro Almodóvar representam duas vertentes do cinema espanhol, mas não são as únicas. Existem outros diretores que também podem ser considerados parâmetros", explica Iciar. Ela não se identifica nem com um nem com outro - por mais que os admire e respeite. Iciar persegue a sua via. Pelos Meus Olhos chama-se, no original, Te Doy Mis Ojos, que, literalmente, quer dizer Te Dou Meus Olhos. É uma frase que a protagonista, interpretada por Laia Marull, diz para o marido, Luís Tosar. Eles brincam e ela vai dizendo, sucessivamente, ‘te dou meu corpo, meu sexo, minha boca, minhas orelhas, meu nariz, meus olhos." Parece só uma brincadeira inocente, mas na verdade essa mulher está se colocando nas mãos do marido, como se fosse um objeto de sua propriedade. A submissão desperta os piores instintos no marido, que bate nela. Na cena inicial, quando o filme se abre, Laia Marull está arrumando de qualquer jeito suas coisas para fugir de casa com o filho. Ela busca refúgio na casa da irmã. Parte tão aflita que sai de casa de pantufas. A história trata de violência doméstica, mas o tema de Iciar Bollain é essa mulher que precisa recuperar seus olhos, sua identidade - e por isso ela vira guia de quadros de museu. "É isso", concorda a diretora. "A violência contra a mulher é um problema universal", ela acrescenta. "Não ocorre somente em nossas sociedades latinas, que são consideradas mais machistas." O assunto já havia atraído Iciar em seu curta de estréia, Amor Que Mata. À força de tanto ler na imprensa diária e ver na TV essas histórias de mulheres que apanham dos maridos, ela resolver estender seu curta. Saiu a campo e fez uma extensa pesquisa. Descobriu, em especial, que havia uma associação de mulheres vítimas de violência em Toledo. Foram oito meses de pesquisa, ouvindo histórias. O roteiro foi escrito em dois meses, a filmagem durou mais dois meses - em Toledo, um pouco pela plasticidade e beleza da cidade, mas também por um certo aspecto claustrofóbico. Toledo é murada e isso ajudava a construir o clima do universo fechado em que vive a personagem de Laia. Uma cena é particularmente expressiva do método de trabalho de Iciar - a do grupo de apoio freqüentado pelo marido. "Tenho dois atores ali dentro, o que faz o terapeuta e o marido que se transformou, adquirindo consciência de sua brutalidade. Os demais são todos extras. Trabalhamos muito e talvez alguns deles estivessem exorcizando comportamentos pessoais. Construir essas cenas e tornar verdadeiros esses homens, não apenas caricaturas, foi uma das etapas mais gratificantes do processo de criação do filme."   Pelos Meus Olhos. (Te Doy Mis Ojos, Espanha/2003, 106 min.) - Drama. Dir.Icíar Bollaín. 14 anos. Cotação: Bom

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