" Pelé Eterno" estréia com 400 gols do "Rei"

O torcedor brasileiro já pode assistir a partir de hoje, em 150 salas do País, a uma versão praticamente completa do documentário Pelé Eterno, de Anibal Massaini Neto. O motivo é que, a partir do próximo ano, quando o filme iniciar sua temporada pela Europa e Estados Unidos, será representado por uma versão com, pelo menos, 10 minutos a menos. "Lá fora, não interessa tanto torneios como Rio-São Paulo", justifica Massaini. "Por isso, vamos privilegiar as imagens das copas, do Santos e do Cosmos." Em 2h05, o torcedor tem à disposição cerca de 400 gols do maior jogador de todos os tempos, desde os mais conhecidos até verdadeiras raridades, como a estréia de Pelé no Maracanã, em um combinado Santos/Vasco em que ele vestiu a camisa da Cruz de Malta. A edição do filme, aliás, seria outra se dependesse de Pelé. "Eu colocaria mais gols e diminuiria a quantidade de depoimentos que me elogiam", disse o ex-jogador, que também gostaria de ver menos imagens suas ao lado de mulheres. "Acho que exageram na quantidade de fotos." Pelé é insaciável em relação ao conteúdo do documentário, mas é bem marcado pelo diretor Massaini. "Eu também adoraria colocar todo esse material, mas a duração não pode ultrapassar a que estipulamos", explica. "Um consolo é que, quando o filme chegar à TV, será na forma de minissérie, o que vai permitir a inclusão de cenas que foram agora cortadas." Com isso, outras boas histórias poderão ser compartilhadas com o público. Em uma reunião informal com alguns jornalistas, na quarta-feira, Pelé revelou pequenos, mas saborosos segredos. Como a adoração por jogar pião (brincadeira que ainda hoje o fascina) ou a inocência que marcava seu caráter quando disputava a Copa da Suécia, em 1958. "Treinávamos ao redor de um lago onde, nas tardes de sol, ficavam algumas meninas com os peitos de fora", conta. "Mas eu corria olhando para frente, com medo de, se desse uma espiada, recebesse um castigo divino." Pelé lembra também do desespero que lhe tomou quando o Brasil conquistou aquele Mundial. "Enquanto todos estavam ansiosos pelos cumprimentos do rei da Suécia, eu queria mesmo era ligar para minha família e contar sobre nossa vitória." Em 1970, mais maduro e experiente, Pelé conta que, apesar das exuberantes apresentações, a seleção brasileira era um time cauteloso. "Jogávamos todos atrás, apenas Jairzinho e, às vezes, Tostão ficavam à frente." Leia entrevista exclusiva concedida pelo Rei Pelé ao repórter e crítico do "Estado" Luiz Zanin OricchioEstado - O filme Pelé Eterno faz um bom retrato do mito Pelé? Pelé - É um compacto de duas horas e pouco. Faz um bom resumo não só da minha carreira como da minha vida. O filme resgata o que o Pelé representou para o País, e sem ele talvez as gerações mais jovens não teriam idéia. Acho que isso é o mais importante. Mas a minha vida ainda é cheia de mistérios. Daria para fazer vários outros filmes. Vou citar um caso. Como jogador eu quebrei todos os recordes, entre eles o número de gols marcados. Só um eu não tenho: não marquei cinco gols de cabeça na mesma partida. Sabe a quem pertence esse recorde? Ao meu pai, Dondinho. A gente sai do filme com a impressão de que aquilo que vimos não se repetirá nunca mais. Mudou muita coisa no futebol de hoje em relação ao seu tempo? Mudou demais, e não só no futebol. A sociedade toda mudou. Os mais novos chamavam os mais velhos de senhor. Lá no interior a gente pedia a bênção. E o jogador jogava porque gostava da camisa que vestia. Hoje, ele joga seis meses no clube e já pensa na transferência para o exterior. Não cria raízes e os torcedores ficam sem ídolos. Naquele tempo alguns jogadores também foram para a Europa, como o Evaristo, o Altafini, o Julinho e vários outros. Mas hoje é um êxodo. Na minha época, todo time grande tinha três, quatro craques. Hoje, quando tem um é muito e ele logo vai embora. No filme aparece que você recebeu muitas propostas milionárias para a época. Nunca esteve tentado a sair? Sempre preferi ficar aqui. Fui para os Estados Unidos, jogar no Cosmos, para divulgar o futebol. E voltei correndo. Quero ficar por aqui, sempre. Sou mineiro. E mineiro é muito raiz. Mas dá pena ver o futebol brasileiro do jeito que está. Toda uma seleção, inclusive os reservas, jogando no exterior. E os nossos campos vazios. Outro dia estava passando Flamengo e Corinthians, os dois times de maior torcida, com o estádio vazio. E no mesmo horário Portugal e Espanha, pela Eurocopa, com o campo explodindo de cheio. Tem gente que culpa a lei que leva seu nome por tudo isso. O que você acha? É engraçado. Querem a volta do passe. Porque não revogam a Lei Áurea e colocam de novo a escravidão? Eu repito o que disse quando estive no ministério: para sanear o futebol brasileiro os presidentes de clubes deveriam ser obrigados a publicar um balanço de fim de ano. Para onde vai o dinheiro de venda de jogadores? Para vender uma cadeira cativa no estádio eles têm de consultar o conselho. Mas para vender um jogador, que faz parte do patrimônio do clube, eles não precisam dar satisfação a ninguém. No filme se nota a falta do segundo gol do Brasil contra a Itália, em 1970. O que houve com o gol do Gérson? Ele levou a mal uma brincadeira. Eu disse certa vez que o "Papagaio (apelido de Gérson) tinha ido ao banheiro fumar no intervalo do jogo". Todo mundo sabia que ele fazia isso e ele ficou bravo. Depois nos entendemos, mas quando chegou a hora de colocar as imagens no filme, ele mandou falar com o advogado dele. Já com as 12 filhas do Garrincha conseguimos nos entender para que as imagens do pai estivessem presentes. Você falou que ficou chateado vendo o estádio vazio no Corinthians e Flamengo. O jogador sente muito a diferença entre o estádio cheio e o vazio? Demais. Você sente o calor da torcida, aquilo dá uma energia a mais. Não adianta falar que todo jogo é a mesma coisa, que valem três pontos, etc. Quando o estádio está lotado, as pessoas vibrando, a sensação é diferente.

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