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'Pela Janela' é um sopro de inteligência e afeto

Filme é todo construído desses momentos significativos

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

18 Janeiro 2018 | 06h01

Houve tempo em que os personagens dos filmes pareciam viver de brisa. Apaixonavam-se, riam, amavam, odiavam, brigavam, sem que ninguém tivesse ideia dos seus meios de sustento. Isso vai mudando. Vários filmes brasileiros já se focam no ambiente de trabalho dos personagens, porque, claro, este tem tudo a ver com o jeito que as pessoas se situam no mundo, com quem convivem, como pensam, por que sofrem. Pela Janela, de Caroline Leone, é um deles, ao lado de outros como Corpo Elétrico, de Marcelo Caetano, e Arábia, de João Dumas e Affonso Uchôa.

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A personagem principal de Pela Janela é a operária Rosália, magnífica interpretação de Magali Biff. Ela é trabalhadora especializada em uma fábrica de produtos eletrônicos. Fica sem emprego quando essa empresa se funde com outra. Na “reengenharia” não sobra lugar para Rosália. Portanto, Pela Janela vai contemplar essa modalidade do trabalho que é tão conhecida dos brasileiros - a demissão sem justa causa e o desemprego.

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Imersa nesse trauma, que lhe tira o sentido da vida, Rosália será confortada pelo irmão, vivido, de maneira não menos brilhante, por Cacá Amaral. Este precisa entregar um carro em Buenos Aires para a filha do chefe e decide levar a irmã na viagem. Por quê? Porque viagens fazem bem.

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Desse modo, Pela Janela transforma-se em peculiar road movie, no qual a experiência da estrada é usada no processo de reconstrução psicológico de alguém expelido do “mercado”, depois de haver dedicado toda a sua vida ao trabalho.

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Construído com toda sensibilidade, o filme reserva passagens notáveis nessa trajetória de cura de Rosália. A passagem pelas Cataratas do Iguaçu é notável. Como se o poder das águas ensinasse a Rosália a pequenez das nossas aspirações neste mundo. Um exercício de relativização, mesmo que ela seja incapaz de verbalizar a coisa nesses termos.

A outra, quando ela procura estabelecer contato com uma jovem mãe argentina, num hotel em que ficam. Uma não fala o idioma da outra e a ignorância mútua rende momentos divertidos. Mas também ternos, como a dizer que a empatia entre mulheres transcende as barreiras linguísticas e de geração das interlocutoras.

Pela Janela é todo construído desses momentos significativos. Alguns deles são “epifânicos”, no sentido em que conduzem a revelações, tanto da personagem como do espectador. Colocamo-nos no lugar de Rosália e, com ela, vamos descobrindo a real medida das coisas. Que às vezes reside no trivial, como uma panela comprada na beira da estrada, uma música que se cantava com a mãe, uma festa em país estrangeiro, com gente simpática que fala uma língua que não entendemos.

Tudo forma um mosaico, um sutil bordado neste trabalho amoroso, crítico - e inteligente, mas sem ostentação. Em tempos tão brutos, o filme é como uma carícia suave. 

 

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