"Peixe Grande" traz histórias extraordinárias

Ed Bloom é um impostor ou tem apenas imaginação privilegiada? É o que terá de decidir o espectador de Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas, de Tim Burton. Bloom, interpretado na velhice por Albert Finney e na mocidade por Ewan McGregor, é um homem de histórias extraordinárias. Segundo esse magnífico contador de casos, ele, quando jovem, deixou a terra natal em companhia de um gigante, encontrou uma cidade maravilhosa onde todos vivem descalços e felizes, conviveu com uma bruxa e assim por diante. Tudo vem na forma de um registro visual marcante, alegre, que reforça o ambiente de fábula. Andaram falando em Fellini sobre este Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas, um exagero evidente, mas não como referência para a compreensão do filme. O fato é que Tim Burton é dos poucos cineastas americanos com peito suficiente para soltar a fantasia e expressar um desprezo evidente pela linguagem realista do cinema, dominante em seu país - e, por extensão, no restante do mundo. De fato, o tema desse filme, adaptado de um romance de Daniel Wallace, faz bem a ponte entre o mundo da realidade e o da fantasia. De um lado temos um pai que pode ser visto como alguém que levou uma vida tão interessante que parece fantástica - pelo menos em sua versão. De outro, um filho para quem essas mesmas histórias do pai não passam da mais rematada e constrangedora mentira. Há também aquele tipo inevitável de balanço existencial, pois o filho mora na França e regressa para os Estados Unidos quando sabe que o pai está doente e vai morrer. A fantasia humana não é necessariamente doce e rósea como se costuma pensar. Burton, sem ser nada intelectual, sabe disso, como se vê em alguns dos seus filmes anteriores como Edward Mãos de Tesoura, Batman, Ed Wood e Planeta dos Macacos. Aliás, sua vocação gótica não esconde a preferência pelas zonas de sombra da natureza humana. Enfim, esse é o registro de Peixe Grande e ele não parece estranho a toda a biografia do próprio Tim Burton que viveu uma relação tumultuada com o pai e teve de passá-la a limpo quando ele morreu.

Agencia Estado,

20 de fevereiro de 2004 | 10h56

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