Acervo Pedro Kos
Acervo Pedro Kos

Pedro Kos retrata o drama de pessoas sem teto no curta ‘Onde Eu Moro’, candidato ao Oscar

Filme alterna depoimentos de pessoas em dificuldade com imagens de prédios de luxo sendo construídos

Mariane Morisawa, Especial para o Estadão

22 de fevereiro de 2022 | 05h00

Pedro Kos não precisou ir muito longe para encontrar o tema de Onde Eu Moro, que concorre ao Oscar de curta-metragem documentário e fez do diretor o único brasileiro na lista de indicados. Em Los Angeles, onde o carioca mora, é quase impossível dar um passo sem cruzar com uma pessoa morando em tenda ou no carro. São mais de 66 mil pessoas vivendo sem um teto no Condado de Los Angeles, pelos números de 2020. Jon Shenk, que codirigiu o filme com Kos, não encontrou situação melhor em São Francisco, onde há mais de 8 mil pessoas sem casa – cerca de 1% da população total da cidade. 

“Crescendo no Brasil, vi muito o contraste da riqueza com a pobreza. E comecei a ver isso refletido nos Estados Unidos”, disse Pedro Kos em entrevista ao Estadão, por videoconferência. “Eu os considero meus vizinhos, queria saber suas histórias.”

Kos e Shenk procuraram ONGs das duas cidades e de Seattle para conhecer os personagens do filme. “Todo o mundo pensa que a população de sem-teto é viciada ou louca”, disse Kos. “Mas não poderia ser mais oposto. A gente começou a ouvir histórias de gente de todas as origens, que por acaso teve uma emergência médica, ou sofreu uma violência. Basicamente vimos um espelho. Somos nós. Serviu para mostrar quem é essa sociedade. Não é culpa deles. É do sistema, que está marginalizando, empurrando as pessoas mais frágeis, mais vulneráveis, para fora.”

No filme, disponível na Netflix, há as mais diversas histórias, desde pessoas que têm problemas de saúde mental ou de uso de substâncias, que são o estereótipo, até mulheres que sofreram abuso, uma mãe que não consegue pagar o aluguel, mas faz questão de tentar dar uma vida minimamente digna para os filhos, um artista de rua do Hollywood Boulevard, uma faxineira que dorme em um abrigo à noite, pois seu salário não paga um quarto. É uma situação chocante para a maior potência econômica e militar do mundo. 

Onde Eu Moro alterna depoimentos com imagens aéreas das cidades e de prédios de luxo sendo construídos. “É de enlouquecer. Quem vai pagar US$ 5 mil (cerca de R$ 25,5 mil) em um apartamento de um dormitório? Muitos desses apartamentos ficam vazios, enquanto há uma população enorme que não consegue pagar aluguel.”

Quando há alguma proposta, como a construção de abrigos, não raro a comunidade se opõe – mesmo nesses lugares onde a maioria da população é progressista. “Isso vem do medo. Esse diálogo é uma vítima do debate desumanizador. Uma das coisas que queríamos com o filme era humanizar.”

Essa sensibilidade para a desigualdade vem de sua vida no Brasil, acredita Kos. “Sou de uma família totalmente brasileira”, disse ele, nascido no Rio de Janeiro, onde morou até os 12 anos. “Meu avô era médico e tinha uma clínica que tratava quem entrava lá. Minha avó também ajudava muita gente. Meus pais sempre exigiram que eu tratasse todos com respeito.” 

Sua paixão pelo cinema vem ainda da infância. Quando se mudou para os Estados Unidos com os pais, mergulhou ainda mais na sala escura. “O cinema virou meu melhor amigo”, disse Kos, descrevendo-se como acanhado. 

Kos cursou direção de teatro na Universidade Yale e começou a editar. Trabalhou com as documentaristas Jessica Sanders e Freida Mock até ser convidado para montar Lixo Extraordinário, documentário de Lucy Walker, Karen Harley e João Jardim sobre o trabalho de Vik Muniz no Jardim Gramacho, o maior lixão do mundo. Além de Onde Eu Moro, no ano passado ele dirigiu também o longa Rebel Hearts, sobre um grupo de freiras de Los Angeles que desafiou o patriarcado da Igreja Católica. 

A indicação para o Oscar foi uma surpresa maravilhosa, disse Pedro Kos. Ele espera que o filme contribua para o diálogo sobre o assunto. Muitos dos personagens do filme já deixaram a situação de rua e conseguiram empregos. Depois da campanha, ele tem planos de passar um tempo no Brasil. “Toda vez que piso no Rio, sinto que estou em casa”, disse o cineasta, que tem projetos no País, sobre os quais ainda não pode falar. “Fazer filmes aí é um grande sonho meu.” 

Os concorrentes 

Audible

Um jogador de futebol surdo lida com o suicídio de um amigo. Na Netflix.

The Queen of Basketball

A história da jogadora de basquete Lusia Harris. No YouTube.

When We Were Bullies

O cineasta examina um caso de bullying com seus colegas e professor da quinta série.

Três Canções para Benazir

Homem dividido entre o exército e a família. Netflix.

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