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Peças pouco conhecidas do escultor Amilcar de Castro ganham mostra no Rio

Têm feito sucesso entre os compradores os blocos de madeira maciça e talhadas, de braúna, ipê preto, maçaranduba e gombeira

Roberta Pennafort/ RIO , O Estado de S. Paulo

26 de novembro de 2013 | 19h47

O Brasil conhece Amilcar de Castro (1920-2002) por suas esculturas geométricas em aço e ferro recortados e expostas ao ar livre. Já a galerista Silvia Cintra, representante do artista mineiro no Rio e sua amiga e marchand por 30 anos, é íntima não só de suas obras em grandes dimensões, mas também das peças menores em madeira e dos desenhos guardados no antigo ateliê dele, em Nova Lima, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, onde hoje fica o Instituto Amilcar de Castro.

São itens raros de uma produção de cinco décadas que ela selecionou para montar uma exposição em sua galeria, na Gávea. A mostra abriu no feriado do dia 15. Desde então, têm feito sucesso entre os compradores os blocos de madeira maciça e talhadas, de braúna, ipê preto, maçaranduba e gombeira, vendidos a R$ 100 mil. Eram xodós de Amilcar, segundo Silvia.

Os desenhos sobre tela das séries Linhas e Envelope – Amilcar não gostava de chamar de pintura; dizia que pintor era Matisse, que pensava o mundo através das cores – são dos anos 90. Derivam-se de estudos em papel e remetem a seus desenhos do período neoconcreto, do fim dos anos 50, quando, em companhia de Ferreira Gullar, Hélio Oiticica, Franz Weissmann, Lygia Clark e Lygia Pape, ele lançou as bases do movimento que defendia o caráter individual da arte e a autonomia da obra em relação ao meio técnico de que se utiliza. “A sensibilidade funda tudo”, diria Amilcar.

Uma tela grande de frente para a porta da galeria explora os vazios das formas. O acrílico branco e vermelho nem Silvia conhecia. “Queria trazer o Amilcar pouco conhecido e mostrar várias vertentes que ele ensaiou. Tenho obrigação de manter viva sua memória. Se hoje o Brasil é reconhecido mundialmente por suas esculturas, deve-se muito a ele. Os jovens escultores têm no Amilcar um ídolo”, acredita a galerista, que no ano que vem estará envolvida, junto com o Instituto, numa grande retrospectiva, nos museus de arte moderna no Rio e de São Paulo.

Em menos de dez dias, metade da exposição já havia sido vendida. Nem sempre foi assim. Amilcar nunca foi um artista de fácil leitura. As primeiras obras que Silvia conseguiu vender foram desenhos.

“Ele nunca foi comercial. Não fazia concessões. Se pediam para que fizesse esculturas coloridas, ele dizia: ‘então é melhor fazer de plástico’”, lembra Silvia, que teve em Amilcar seu primeiro artista representado. “Até hoje não vende fácil, não é como os artistas que estão na moda, embora seja muito mais procurado. Quem compra é uma pessoa que já tem um preparo cultural.”

Em seu escritório, ela guarda doze maquetes de quinze a trinta centímetros que ganhou de presente – eles se encontraram numa padaria e Amilcar as tirou de sacolas de supermercado. Já recebeu ofertas para vendê-las, mas as guarda como relíquias do amigo.

Além da madeira, à qual se dedicou já mais velho, Amilcar flertou com o vidro, granito e o mármore. Mas foi com o aço corten sua relação mais duradoura. O material enferruja apenas até um determinado estágio, resistindo melhor às intempéries.

Independentemente do suporte, a obra vive um momento de alta. Está atualmente em cartaz no Instituto de Arte Contemporânea, em São Paulo, e no Centro Cultural Banco do Brasil de Belo Horizonte. Uma outra exposição passou meses atrás por Paris. Para 2014, o planejamento é levar para os MAMs telas de grande porte, que não cabem em qualquer galeria, e esculturas.

“Existe uma energia no mercado que faz com que a obra seja requisitada e que os colecionadores fiquem interessados”, diz Rodrigo de Castro, primogênito de Amilcar e vice-presidente do Instituto. “Ela vai além do tempo, continua surpreendendo e não perde o impacto e o vigor”.

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