Paz Vega viverá as mulheres do escritor Paulo Coelho

Estrela de Pedro Almodóvar, atriz fala sobre o filme 'Não Pare na Pista', baseado na vida do brasileiro

Entrevista com

Paz Vega

Luiz Carlos Merten / Enviado Especial a Cannes,

31 de maio de 2014 | 15h00

Ela trabalhou com Pedro Almodóvar (Fale com Ela) e virou estrela de Hollywood (Spanglish). Não importa quantos papéis tenha feito, ou ainda fará. No imaginário de toda uma geração de espectadores, Paz Vega será sempre a inesquecível protagonista de Lúcia e o Sexo, de Julio Medem. Ela sabe – até hoje guarda um carinho especial pelo diretor, e pela personagem. Confessa – “Lúcia era eu.”  Paz fez a abertura do recente Festival de Cannes, ao lado de Nicole Kidman, como a Maria Callas de Olivier Dahan em Grace: A Princesa de Mônaco. O filme foi recebido a pedradas pelos críticos, mas é bem interessante. Depois de decifrar o mistério de Edith Piaf em Hino ao Amor, Dahan busca iluminar quem foi a estrela de Hollywood que virou princesa de Mônaco. Embora pequeno, o papel de Paz Vega é essencial no filme. Na verdade, se é possível entender Grace, é por meio dela.   

Paz encontrou-se com o repórter num hotel de luxo da Croisette para falar de sua carreira e, principalmente, da personagem em Não Pare na Pista – A Melhor História de Paulo Coelho, que estreia em 14 de agosto no Brasil. Paz representa Luiza, que encarna todas as mulheres do escritor antes da atual, Cristina. Casada com um venezuelano, mãe de dois filhos, a estrela vive entre a Espanha e os EUA (Los Angeles). Está louca para regressar ao Brasil. “Já conhecia o Rio, mas tive o privilégio de viver uma vida de carioca enquanto filmava. Conheci o Rio que não era o dos turistas. Vivi uma das melhores temporadas de minha vida.”

Como surgiu a personagem de Luiza em sua vida?

Meu agente me enviou o roteiro, e foi uma descoberta. Naturalmente que eu sabia quem era Paulo Coelho, mas fiquei encantada com ele, com a personagem. Luiza é uma figura de ficção que encarna todas as mulheres de uma fase da vida de Paulo, até que ele conhecesse sua atual mulher. Luiza foi musa, inspiradora. Acompanhou-o no caminho de Santiago. É rica. Compartilha com ele as experiências das drogas. O arco do filme é bem amplo. Cobre a vida toda, até o momento em que Paulo decide que quer ser escritor e envia o primeiro livro a um editor. O livro foi recusado, mas Luiza foi decisiva para que ele não desistisse. Paulo perseverou e virou esse grande escritor amado por todo o mundo.

Todo o mundo em termos. No Brasil, muita gente contesta que ele seja até mesmo escritor. É só um guia de autoajuda. O que você pensa disso?

É muito difícil obter reconhecimento na própria terra. Sou de Sevilha, na Andaluzia, e tive de obter reconhecimento fora, antes de fazer sucesso em casa. Venho de uma família que não tem muita ligação com as artes. Tenho uma irmã que canta e dança flamenco. Aos 16 anos, decidi que queria ser atriz, minha família me apoiou e hoje todos se orgulham muito de mim. Mas não sei como teria sido sem Lúcia e o Sexo. Paulo (Coelho) é um guia espiritual. Acho reducionismo dizer que é um autor de autoajuda, mas e se for? Ele é um sábio, tem o dom de dizer coisas profundas com simplicidade. Quando lia, tinha a impressão de que dizia coisas especialmente para mim. O filme é muito bonito. O roteiro (de Carolina Kotscho) e a direção (de Daniel Augusto) revelam o verdadeiro Paulo Coelho. Vai ser uma surpresa. Ele já viu, e gostou.

Paulo participou do processo criativo?

Ele não interferiu em nada, até onde sei. Mas falei com ele, antes de filmar, e suas observações foram preciosas.

O ator que o interpreta, Júlio Andrade, é extraordinário. Já o conhecia?

Pois a verdade é que não, mas estou de acordo. Júlio foi a maior surpresa desse filme, para mim. É estupendo. Conseguiu se metamorfosear em Paulo Coelho. Mas surpresa vai ter você. Ele tem um irmão, Ravel, que faz o Paulo mais jovem. E Ravel é outro grandíssimo ator.

Filmar no Brasil foi diferente?

Tenho filmado em diferentes lugares, em diferentes idiomas. Não creio que o processo seja distinto. Quando o diretor começa a filmar, por mais pessoal que seja seu processo, a sensação é de percorrer um caminho conhecido. Tem gente que fala no país cinema. Apesar das diferenças, as chances de entendimento são imensas. Eu diria, totais.

Já que a personagem foi tão importante em sua carreira, que lembrança guarda de Lúcia?

Caro (Hombre), toda hora estou me lembrando de Lúcia porque as pessoas não param de me perguntar. A personagem segue viva no imaginário do público. Era muito jovem, tinha 23 anos e Julio (o diretor Julio Medem) simplesmente queria que eu fosse ela. Havia momentos em que eu tinha a impressão de que ele roubava coisas minhas para compor a personagem. Foi um processo mágico, como nunca vivi.

As cenas de sexo ajudaram a esculpir seu mito. Como foram?

Pois eram tão orgânicas que as fazia sem me perguntar nem angustiar. Aprendi cedo que uma atriz precisa encarar o corpo como ferramenta de trabalho. Quando faço alguma coisa, em cena, não sou eu, Paz, a mãe de dois filhos. É a personagem, a quem estou servindo.

Você está conseguindo quebrar a escrita de ser, em Hollywood, a eterna criada, como são quase sempre as latinas. Como encara isso?

A grande barreira de qualquer estrangeiro é sempre representar em outra língua, o que não é fácil. Mas tenho a impressão de que o mundo todo está mudando, e o cinema só acompanha a mudança. Em Los Angeles, o espanhol é uma espécie de segunda língua. Os hispânicos ocupam cargos importantes. Somos um segmento importante da sociedade. E, nós, atores, nos beneficiamos disso.

Como foi fazer a Callas?

Foi como um sonho para mim. Sempre fui louca por ela. Li todas as suas biografias, tenho todos os discos. Fui eu que tomei a iniciativa de propor a Olivier (Dahan) que me desse o papel. Ele tinha uma ideia muito precisa de como e por que precisava da Callas na trama, mas não era um especialista. Olivier me permitiu, inclusive, escolher a ária que ia cantar (O Mio Babbino Caro, da ópera ‘Gianni Schicchi’, de Giacomo Puccini). Queria fazer a Medeia, mas era muito difícil. Escolhi uma ária mais simples, mas que exigiu muita preparação. Tive ajuda para preparar a voz, a respiração, os gestos. Embora a voz no filme seja a de Maria, tive de cantar no set. Não se pode personificar uma diva sem cantar. É necessário para a verossimilhança.

Por falar em verossimilhança, sua Maria toma algumas liberdades. Por quê?

Realmente, no período focado por Olivier, Callas já havia iniciado sua déscente (queda). A voz já não era mais a mesma, mas ela permanecia um ícone, o que foi até o fim. Olivier queria a sua Callas toute en beauté (belíssima), fulgurante, porque a função dramática da personagem é oferecer um contraponto a Grace. Digo no filme que Ari (o multimilionário grego Aristóteles Onassis) quer que eu pare de cantar, mas nunca o farei. É o oposto de Grace, que sofre porque, ao virar princesa de Mônaco, teve de renunciar à carreira de atriz.

Na coletiva de Grace: A Princesa de Mônaco, todo mundo falou muito em amor, mas eu duvido, a partir do filme, que Grace amasse o marido, o príncipe Rainier, de verdade. O que ela fez foi representar um papel, e você, melhor que ninguém, sabe disso. Concorda?

Era o foco de Olivier (Dahan). Mais do que amar o marido, Grace amava representar, amava o cinema. Sua vida só ganha sentido quando ela passa a interpretar o papel que todo mundo espera dela. O aplauso do público, daquele público, o meu aplauso, avaliza que ela está atuando bem. Acho que é um filme muito interessante. Já vi que a crítica está sendo dura, mas Cannes, tirando o glamour, não é o melhor foro para um filme como esse. Grace denuncia o Estado-espetáculo, olha o mundo como um jogo de aparência. Acho o roteiro bem sutil. (Alfred) Hitchcock percebe, no começo, quão infeliz Grace está. E eu percebo, no fim, como ela conseguiu dar um novo sentido à sua vida. Gostar ou não, é a prerrogativa de cada um. Gostar de Paulo Coelho, também. O importante é não ter preconceito e ver o que o filme ou os livros nos propõem.

Por falar em glamour, você estava linda no tapete vermelho. Quem era o estilista?

Um libanês chamado Élie Saab, que tem ateliês em Paris e Milão. Fico encantada com a maneira como ele usa os tecidos e mistura referências culturais para nos deixar (as mulheres) mais belas.

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