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Paulo Machline mostra Joãosinho Trinta antes do mito carnavalesco

Filme 'Trinta' estreia em salas de todo o Brasil nesta quinta-feira, 13

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

13 de novembro de 2014 | 03h00

Paulo Machline sempre foi apaixonado por carnaval. Admirava o trabalho do carnavalesco Joãosinho Trinta, mas, como diz, jamais lhe passou pela cabeça que seria um personagem capaz de arrebatá-lo. Até que, em 2002, ele leu um texto de Carlos Heitor Cony sobre o Joãosinho que não conhecia, o pré-carnavalesco. Epa! Algo se passou, e Machline foi atrás do próprio Joaosinho. Durante meses, realizou sucessivas entrevistas com ele. Já pensava num filme, e no ator que faria o papel. “Pela estatura”, admite, pensou logo em Matheus Nachtergaele.

Os dois eram baixinhos, e não importava que Matheus fosse de ascendência belga e Joãosinho, mouro e índio. Matheus tinha a outra estatura – artística – para entender e criar o Joãosinho que, agora sim, começava a arrebatar Paulo Machline. Outras vezes, em 2006 e 2008, o diretor esteve perto de fazer seu filme. Passaram-se mais de dez anos antes que, finalmente, Trinta viesse a público. Lançado no Festival do Rio, o filme teve uma memorável sessão no Teatro Municipal, que foi o berço do artista Joãosinho Trinta. A estreia ocorre em 70 salas da Região Sul/Sudeste e, depois, se amplia para o Norte/Nordeste. No total, 120 a 140 salas estarão exibindo Trinta em todo o Brasil, nas próximas semanas.

O primeiro roteiro, que Machline encomendou a Cláudio Galperin, era um épico. Teria de ser um filme muito grande. Mas Machline sentia que algo não iria funcionar, e não era pelos imensos recursos que o projeto exigiria. Dos seus contatos e múltiplas conversas com Joãosinho, da sua convivência com ele em barracões de escola de samba, Machline sabia quanto Joãosinho era tímido e solitário. “Era alguém que tinha dificuldade para se comunicar, para dar ordens. A cena do piti, no filme, é real. Vi o Joãosinho se descontrolar e reagir daquele jeito.”

O medo íntimo de Paulo Machline era se perder naquela história tão grande, de perder seu personagem. “Percebi que precisava selecionar o meu recorte. Li e reli o roteiro do Galperin e descobri que o que queria contar estava entre as páginas 65 e 90. Não me interessava o mito, mas o homem. Se Joãosinho fosse um super-herói, meu recorte seria aquele momento sobrenatural em que o herói descobre seus superpoderes.” E que momento é esse na vida de Joãosinho? “É o trauma. O garoto veio de São Luiz, enfrentando todo tipo de preconceito, para tentar ser bailarino no Teatro Municipal. Mas o sonho se revela uma frustração. Joãosinho não tem, nunca terá, estatura para se destacar no corpo de baile do teatro. O clique que vai mudar sua vida é a transformação em carnavalesco.”

Em sua curta filmografia, Machline alinha um curta, História de Futebol, que o levou a concorrer ao Oscar da categoria, e um longa polêmico, no sentido de que não é uma unanimidade, mas muito interessante – Natimorto, que adaptou do romance de Lourenço Mutarelli. O Joãosinho de Trinta sintetiza o artista brasileiro para Machline. “Ele não teve educação formal. Foi um autoditadata que adquiriu cultura como rato de biblioteca e que levou sua base erudita para o mundo da cultura popular, por meio do carnaval.” Tal é o recorte do filme, que recria esse momento particular, no começo dos anos 1970, quando Joãosinho, para (re)nascer como artista, após a frustração do balé, aceita substituir seu cunhado e mestre, Pamplona, no barracão da Beija-Flor.

Para todo o mundo, ele não vai conseguir dar conta do recado. É ‘frutinha’, não sabe se impor. Para complicar, seu enredo é complicado, misturando a alta cultura europeia – a história da França – com os mitos do folclore do Maranhão, onde nasceu. “Joãosinho era mitômano. Gostava de contar o próprio nascimento, como a mãe viúva engravidou ao se divertir no carnaval, e como isso, a determinação da gênese, já direcionava seu futuro.” Acuado no barracão, Joãosinho explode – e durante três ou quatro minutos tensos, perante uma plateia de ficção atônita, Matheus desfia todos os palavrões da língua portuguesa.

Dá certo, e com a mediação da irmã, o próprio Pamplona vem em seu socorro. Abrem-se as portas da magia e a comunidade visualiza o carnaval, segundo Joãosinho Trinta. O restante é um documentário, a título de encerramento, que sintetiza a história de Joãosinho e dá conta daquele primeiro desfile vitorioso. Machline explica as imagens de arquivo. “Os desfiles, naquela época, eram mais pobres, mesmo que eu tenha de colocar a expressão entre aspas. Não queria empobrecer mais ainda, já que não tinha recursos para recriar o desfile da avenida. Mas eu tinha de mostrar. Sem isso, o arco não estaria completo.” Machline sempre pensou no seu Joãosinho como coisa de cinema. Isabel Valença, a musa da escolas, podia ter carisma, mas não era bela como Mariana Nunes, que faz o papel. Ele queria a beleza de Mariana, como queria o talento de Matheus Nachtergaele. Teve sorte, duplamente. Mariana revela-se uma atriz esplendorosa.

Veja o trailer de 'Trinta' e, logo abaixo, a crítica sobre o filme:


E o grande artista supera seus limites

Personagem deve romper o isolamento para triunfar na sua arte

E prossegue a onda de biografias que assola o cinema brasileiro. Em um mês, terão estreado três filmes. O primeiro a ganhar as telas foi o Tim Maia de Mauro Lima, nesta quinta, 13, chega o Trinta de Paulo Machline, no dia 27, Irmã Dulce tomará de assalto quantas telas? O longa de Vicente Amorim segue um percurso oposto ao de Machline. Estreia primeiro no Norte/Nordeste e só depois baixa para o Sul/Sudeste. Tim Maia e Irmã Dulce têm parceria com a Globo Filmes, que não se interessou por Trinta. A consequência é que os outros dois são blockbusters e Trinta, embora grande como produção, terá um lançamento de guerrilha. “Precisamos do boca a boca”, sinaliza o diretor.

Na entrevista acima, Machline conta que seu desafio, trabalhando com o muito grande, era não perder a medida. Você já ouviu muitas vezes que o carnaval, o desfile da Sapucaí, é o maior espetáculo da Terra. Não é porque o desfile, na época particular de Trinta, ainda não era naquela passarela do samba, mas o longa de Machline sinaliza para outra coisa. O menor espetáculo? Não é nem um espetáculo, embora tenha plumas e paetês. Boa parte do filme, a metade ou mais, passa-se dentro do barracão em que Joãosinho, isolado e acuado, precisa se fazer comunicar para tirar o enredo O rei da França na Ilha da Assombração da imaginação e colocá-lo na avenida, naquele ano de 1974.

Machline acha que fez um filme sobre o artista como autodidata, e o erudito que se expressa na cultura popular. Tudo isso está lá, mas se há um tema em Trinta é a solidão do criador. E como é possível ser solitário, e angustiado, num meio comunitário e que também é uma explosão contagiante de cor, ritmo e alegria, como o carnaval? O Joãosinho de Trinta é tudo isso. Há alguma semelhança com Tim Maia, que Mauro Lima retrata como um artista que, se tinha algum inimigo, era ele. O Tim Maia da ficção, com respaldo nas biografias, era um porre, um chato. Joãosinho vivia confinado – na baixa estatura, no armário, na sua concha. O movimento do filme é liberá-lo, para criar. E para que a realeza da França se solte na ilha da assombração, Joãosinho precisa que Isabel Valença a mítica Xica da Silva da Beija-Flor, o sacramente e seja a sua rainha. O sim de Isabel é a primeira apoteose de Joãosinho. Toda a arquitetura dramática de Trinta converge para isso. / L.C.M.

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