Paulo José pára tudo pra ganhar o Oscarito

O ator, diretor e dramaturgo Paulo José, 63 anos, será homenageado hoje no 28º Festival de Gramado pela sua colaboração ao desenvolvimento da arte cinematográfica brasileira. Em outro dia cheio de atividades, que inclui a exibição de três curtas em competição, um longa nas Premiéres Gramadenses e diversos fóruns e debates sobre cinema, o momento mais esperado é certamente a homenagem ao ator gaúcho no Palácio dos Festivais, às 20h.Bastante atencioso, Paulo José deu à imprensa uma entrevista coletiva no começo desta tarde, comentando diversos assuntos relativos à sua carreira, ao cinema nacional e à cultura brasileira, não se intimidando nem mesmo ao falar sobre o Mal de Parkinson, doença que enfrenta há alguns anos.Cinema Novo e Dogma 95 - Paulo José se mostrou otimista em relação ao espaço que vem ocupando o cinema brasileiro aqui e no exterior. Entre seus depoimentos, chegou a comparar essa retomada ao Cinema Novo - movimento cinematográfico brasileiro da década de 60 que reformulou a linguagem da produção brasileira com sua ótica subversiva, pluralista e nacional -, que por sua vez comparou ao movimento de cinema dinarmaquês Dogma 95 - que prega a simplificação da linguagem cinematográfica pela recusa à utilização de artifícios como efeitos especiais, cenografia, figurino, maquiagem, trilha sonora, etc. "Um cinema direto, onde não se pode ter montagem, não pode ter edição, não pode ter sonorização, uma idéia na cabeça e um câmera na mão... Era exatamente o que propunhamos na década de 60", lembrou."Quando vi os primeiros filmes da Atlântida, como Aviso aos Navegantes num cinema em Porto Alegre, eu via que a minha realidade estava na tela, estava no cinema, era uma coisa que me atingia muito mais diretamente", disse Paulo, completando que o mérito do cinema atual é justamente trazer essa identificação. Ele considerou, por exemplo, a importância de um roteiro bem feito, coincidente à vida brasileira, bem como o papel fundamental de uma boa direção e de boas interpretações que reflitam o dia-a-dia do público. Para exemplificar, Paulo José analisou dois momentos distintos da diretora de arte e esposa Kika Lopes: na década de 80, quando prevaleceu a suntuosidade de figurinos e cenários, pouco condizente com a realidade de muitos dos brasileiros; e o recente Quase Nada, filme de Sérgio Rezende que está na mostra competitiva, onde o sofrimento mundano e a ruralidade são expressos de maneira extremamente fiel nos elementos de cena.Paulo José endossou, por exemplo, opiniões como a de Leonardo Monteiro de Barros, quando aposto que o cinema nacional e sua brasilidade serão a nova onda do cinema de arte no mundo, a exemplo das ondas dinamarquesas e iranianas. "Já não funciona mais aquela coisa de fantasiar, de contruir um mundo que não é o nosso. Imaginar que aquela fantasia é o que o público quer ver é como querer que as pessoas façam turismo, conheçam um país a partir de um guia, não tendo a possibilidade de ter contato com outras características do lugar. É como a diferença entre turista e viajante: o turista viaja para fugir de si mesmo, enquanto que o viajante viaja para conhecer a si próprio".Paulo José discorda, porém, de idéias como as que foram discutidas no 3º Congresso Brasileiro de Cinema, que aconteceu em Porto Alegre em maio, que apontavam tentativas de regularizar, junto ao governo, a distribuição de cinema não-americano em pelo menos 50% das salas do país. "Leis de reserva são muito falhas, por que são pouco democráticas. Acho que o que tem que ter é uma taxação para filme estrangeiro, uma lei de proteção como acontece na Europa", disse.Plena atividade - Quando inquerido sobre sua doença, Paulo José não titubeou: "O Mal de Parkinson é uma doença degenarativa, progressiva e irreverssível. O que faço é passar por tratamentos médicos que amenizam essa progressão". Entre estes tratamentos, estaria uma vida mais regrada, pacata e com dieta especial, ao qual o ator admite não conseguir obedecer. "Estou dirigindo um documentário poético sobre Mário Quintana de 52 minutos, que deve ser exibido em canal a cabo. Esse documentário vai ser acompanhado de um CD com declamações e também um CD-ROM".E tem mais, "também estou ensaiando uma peça que devemos estrear dia 8 de setembro, no Rio, chamada Controvérsia, escrita por Carrier, o roteirista do Luís Buñuel. Gravei no sábado também uma participação especial num novo filme do Júlio Bressane, que fala sobre o elouquecimento de Nieztche quando foi morar em Itália".Entre tantas coisas para fazer, Paulo José diz ter desmarcado alguns ensaios para poder vir a Gramado receber o Oscarito. "Não podia deixar de vir... Além da homenagem, este é um festival especial, muito importante para o cenário cultural. Não quis saber e dei um jeito!", concluiu.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.