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'Paulina' e 'Garota Negra' oferecem visões distintas da opressão sobre a mulher

Longas poderão ser vistos no encerramento da Mostra Internacional de Cinema

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

04 de novembro de 2015 | 03h00

Neste último dia da Mostra, ainda dá tempo de ver dois filmes dedicados a duas moças inconformadas. Um é o argentino Paulina; o outro, um clássico do cinema africano, Garota Negra.

Paulina, de Santiago Mitre, tem causado controvérsia. Em especial por causa das atitudes de sua protagonista, interpretada por Dolores Fonzi. Paulina é filha de um juiz e segue carreira acadêmica. Resolve desistir de tudo e empenhar-se na luta de ensinar direitos civis a comunidades carentes numa localidade de fronteira. Lá enfrenta alunos difíceis e é atacada por uma gangue. Mas, contra o pai e contra todos, segue em frente. Uma heroína? Santa? Alguém que abusa da teimosia?

Para além de suas óbvias qualidades cinematográficas (Mitre sabe filmar) é o comportamento da personagem que tem provocado controvérsias. Para quem gosta do filme, significa a recusa (política) de seguir o caminho consagrado em nossas sociedades, em que a justiça rapidamente culpabiliza os pobres e defende os mais abastados. Quem não gosta, aponta a incoerência da personagem: abandonando uma carreira confortável para ensinar regras de convivência, impede que essas mesmas regras sejam seguidas na prática. Não querendo transformar pobres em culpados, permite que estupradores continuem à solta, expondo outras mulheres à ameaça. Transforma seu próprio corpo num campo de batalha ideológico.

Ora, não se pede coerência a uma personagem, mas consistência, e, de certa forma, Paulina parece um ser saído da imaginação do autor para demonstrar alguma tese. Daí a impressão de artificialidade que seu comportamento apresenta. Filmes de tese costumam ter esse tipo de problema.

Bem diferente é o tom de Garota Negra, clássico africano de Ousmane Sembene, de 1966. Diouana (Mbissine Thérèse Diop) é uma moça do Senegal levada para a França, para trabalhar como doméstica. Ela deseja conhecer Paris, mas logo descobre que seria tratada como uma coisa, um animal. Sembene está preocupado com a colonização e seus efeitos degradantes. Porém, sua Diouana não é uma defesa de tese ambulante. É um ser humano complexo que luta contra forças desiguais para se afirmar como tal. Outra é sua dimensão política, ainda que sacrificial.

 

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